domingo, 20 de outubro de 2019

A vida não tem gabarito


Foto: Unsplash 
Eu gostaria de dizer a vocês que existem respostas para cada pergunta que a gente faz. Mas, a verdade é que se existissem respostas para todas as nossas perguntas, não existiria tanta gente confusa sobre tanta coisa, e também não existiria a própria vida.
Tudo começa na infância. Existe a famosa fase dos por quês. A gente cresce e as perguntas mudam. A cada vivência surgem inúmeras dúvidas. E é muito saudável que elas existam. A falta de implicação sobre a própria vida seria a morte.
O fato é que da própria vida, não dá para esperar resposta. A vida é o que acontece enquanto a gente faz planos para o final de semana. É o que acontece enquanto tomamos banho e nos questionamos porque não dizemos tal coisa para aquela pessoa. 
A vida acontece o tempo todo, e não espera que a gente esteja “pronto”, precisamos ir aprendendo durante o caminho. 
Não haverá bulas, nem manuais de instrução. E no lugar dessa frustração que muitas vezes aparecem para algumas perguntas em que não encontramos possíveis soluções, é preciso recriar outros caminhos. Ou outras perguntas. 
E é aqui que isso se torna um problema para muita gente. 
Existem muitas pessoas que querem as coisas mastigadas. Querem a famosa receita de bolo para determinado problema ou dúvida. E existem muitas psicoterapias que prometem isso. 
Para o problema x, você fará isso. Para o problema y, faça aquilo. Mas, a vida é complexa. E não é encaixável em uma ou duas soluções milagrosas que se apliquem a todos.
Cada pessoa é um mundo. E para cada “problema” haverá muitas perguntas que a própria pessoa talvez tenha medo de fazer por justamente saber a resposta. O obvio é a verdade mais difícil de enxergar, não é?
É dai que surgem as queixas. “Por que isso só acontece comigo?” A pergunta certa seria: “O que eu estou fazendo para isso continuar a se repetir na minha vida?” Desta pergunta, inúmeras respostas e novas questões seriam formuladas demonstrando, portanto, o quão inesgotável é o ser humano.
Não são as respostas que nos salvam, embora elas deem o efeito terapêutico que as terapias da moda tanto prometem.  E isso seduz. Sim, alivia, mas temporariamente. A vida muda e a gente muda com ela. Durante o imprevisto que a vida sempre nos coloca, aquela fórmula dada e mastigada não vai se aplicar, será preciso inventar. E é aí que novos ou piores sintomas podem aparecer.
As perguntas dão espaço para a criatividade, para a própria vida. São as perguntas que nos fazem caminhar, pensar e criar.  Imaginem se Isaac Newton não tivesse se questionado sobre o fato de que a maça não caiu da árvore por acaso? A Lei da Gravidade não teria sido formulada.
E teríamos outros inúmeros exemplos da importância das perguntas na história da humanidade. As coisas não estão aí por acaso. Você não tem “dedo podre” para relacionamentos, mas existe um por que na tua vida que faz com que repita a escolha dos mesmos parceiros.
Não é a vida que é injusta contigo, não é o destino, não é Deus, mas é algo que você faz com o que lhe acontece que te coloca nas mesmas situações.
São as perguntas que nos salvam. As perguntas nos impulsionam, nos fazem crescer. Não espere que a vida lhe dê frutos se você mesmo não for lá e plantar a semente.
A vida não tem gabarito. 
Na escola da vida, vai ser preciso você mesmo criar o seu.
 Simony Thomazini

terça-feira, 15 de outubro de 2019

A culpa serve para quê?


Imagem: Unsplash
Sentir culpa não serve para nada.  A pessoa que sente-se culpada não se livra dos outros sentimentos que a acompanha, como a tristeza e a angústia.
A culpa traz como consequência o comodismo.
Quem se sente culpado geralmente acomoda-se em sua queixa.  “Sinto-me tão culpado (a) pelo que fiz que não consigo fazer nada”. Sentir culpa não altera os acontecimentos, e não leva a lugar algum.
A responsabilização pelos nossos atos é o que faz toda a diferença. Se eu me responsabilizo pelo que faço, não sinto culpa, mas gera em mim um movimento de reparação aos danos causados.
A partir do momento em que me responsabilizo, não estou livre das tristezas, mas, tira-me daquele martírio que habitualmente a culpa nos coloca.
Enquanto eu estou ali me queixando, nada acontece. A responsabilidade traz o que é preciso para prosseguir, para ir além num apesar de.
A responsabilização está do lado da vida, e esta, só vai para frente, enquanto a culpa, apenas traz a estagnação, nos paralisa.
Assumir a própria vida e responsabilizar-se por ela, é o único caminho possível para verdadeiras mudanças.
Simony Thomazni

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

A adolescência e os seus conflitos: qual a responsabilidade dos pais?


Várias transformações incontroláveis e involuntárias ocorrem com a chegada da puberdade. Com isso, a criança é impulsionada para a maturidade. É uma fase que é vivida com lutos. Luto pelo corpo infantil que é perdido, assim como o seu papel e identidade mudam, o luto pelos pais que eram idealizados, e alguns outros numa tentativa de construção a uma identidade própria. 
Na adolescência, eles buscam novos modelos tais como ídolos, sonham acordados, imitam, e também temem uma aproximação e invasão dos pais. É aquele famoso momento em que eles começam a sentir-se envergonhados quando os pais aproximam-se de uma roda de amigos, por exemplo. O beijo dado antes de ir para a escola é censurado. Agora, eles cresceram e precisam demonstrar isso a todos. 
Há muitas progressões e regressões nesse processo evolutivo. E é preciso muita paciência por parte dos pais na compreensão disso.  Devido a essas inúmeras transformações que ocorrem com eles, é muito comum que atravessem esse período com um sentimento de profundo vazio muitas vezes ligados a culpa, medos ou outras manifestações relacionadas aos pais.
Essas dificuldades que são típicas desse processo podem, no entanto, desencadear  em outras crises mais graves como depressão, pânico, transtornos alimentares, quadros obsessivos, dentre outros.
Nessa fase é de extrema importância a criação e fortificação de laços, tanto em relação à família, quanto as amizades. Quando isso não acontece, ou ocorre de forma muito falha, o adolescente que já está vivenciando as transformações naturais da idade, acaba sucumbindo com estes outros agravamentos. Esses laços falhos serão buscados por eles de outras formas. 
Com isso, frente a algumas manifestações de frustrações e angústia, alguns adolescentes optam por algumas fugas. Alguns optam por dormir demais, outros buscam o uso de álcool e outras drogas, dentre tantas outras saídas que são muitas vezes destrutivas.
As depressões na adolescência estão relacionadas a feridas anteriores e estão frequentemente ligadas a atitudes de fracasso, sentimento de incompetência e rebaixamento da autoestima.
Há ainda alguns adolescentes que são bastante maduros, porém são marcados por frustrações afetivas criando inúmeras defesas para aplacar seus vazios e fragilidades. Esses vivem “depressões encobertas”. E é preciso muito cuidado aos sinais que são discretos, mas não passam despercebidos por pais atentos e educadores humanizados.
Na atualidade vemos com muita frequência pais fragilizados, imaturos, mal-orientados e com conflitos psíquicos que acabam muitas vezes respigando nos filhos. Esses pais não conseguem serem modelos de identificação. 
Situações como essas geram agravamentos nas relações entre pais e filhos, pois uma vez em que os adolescentes não conseguem identificar-se aos pais, e estes pais não podem estar presentes - entendendo essa presença como falha em relação ao cuidado, afeto e proteção - mais esses adolescentes sentirão dificuldades em separar-se deles posteriormente. 
Diante disto, é necessário o olhar atento, a empatia em compreender os processos evolutivos da adolescência por parte dos pais, bem como das pessoas à sua volta, e o encaminhamento a ajuda psicológica quando percebido sinais de depressão, pânico, transtornos alimentares, dentre outros conflitos emocionais. 
A adolescência já traz consigo extremas perturbações, e os pais, portanto, responsáveis por eles, precisariam apoiá-los durante esse processo. 
Simony Thomazini

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Setembro Amarelo o ano inteiro



Falar sobre morte ainda é um tabu, logo, o suicídio que é uma forma de morrer também é considerado um tabu. 
Freud dizia que é inconcebível e inimaginável pensarmos sobre a própria morte. “No fundo, ninguém acredita em sua própria morte, ou, o que vem a ser o mesmo, no inconsciente, cada um de nós está convencido de sua imortalidade.”
Em outras palavras, podemos dizer que segundo Freud, a morte não existe em nosso inconsciente, acreditando assim em nossa imortalidade tornando-se, portanto, tão difícil pensar e falar sobre ela. 
Dito isso, passamos a ignorar o assunto, e assim contamos as crianças que quando alguém morre vira uma estrelinha, ou vai para algum outro lugar, o que deixa aberto para uma possibilidade de volta. 
Sabemos que a pessoa não voltará. Mas, será que ao dizermos isso a uma criança estamos consolando-a ou consolando a nós mesmos? As pessoas morrem, essa é uma realidade difícil de aceitar, mas nem por isso deixam de existir, pois com elas ficam as marcas, o amor, as lembranças, a história vivida com cada uma delas. 
Há aqueles que amam a vida, e há aqueles que fogem da própria dor, e para essas pessoas é quase inadmissível olhar para um outro que escolhe desistir da própria vida optando em sair de cena escolhendo a morte.
Dessa forma, se há tanta resistência em falar e lidar com a morte, como as pessoas que não estudam sobre o tema do suicídio conseguem reconhecer seus sinais e os alertas de riscos?
Como podemos ensinar as pessoas que depressão não é frescura, falta do que fazer, se vivemos numa sociedade que não permite vivenciar a tristeza, a dor, o choro, as etapas do luto e faz uso de medicação em excesso indo justamente na contramão disso tudo que está sendo dito?
Setembro amarelo é o mês da prevenção ao suicídio, mas é preciso ir muito além disso. Precisamos derrubar o mito de que é necessário termos uma vida perfeita e começarmos a entender que algo sempre faltará, que em alguns momentos é preciso a angústia do vazio para que possamos atravessá-los; criar redes de apoio que amparem, deem o suporte auxiliando nessa árdua tarefa que é viver.
Aceitar a tristeza, falar sobre a dor, dar espaço para o choro, respeitar as etapas do luto é imprescindível que se fale o ano inteiro. É urgente que haja o diálogo sobre depressão e suicídio e que as pessoas entendam que procurar ajuda psicológica NÃO é coisa de louco e ditos do gênero. 
É importante destacar que escutar pessoas com depressão e pensamentos suicidas NÃO é para qualquer um, não se pode achar que pode dar conta de algo tão sério, por isso se você notar que alguém precisa de ajuda recomende análise ou terapia. 
É apenas falando sobre a morte, depressão e suicídio que podemos colocar um fim nos mitos e tabus ainda tão presentes. Cabe aqui a advertência: não apenas em setembro, mas o ano inteiro. 
Simony Thomazini

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Existe acolhimento nos hospitais para as pessoas que tentam suicídio?



Qual a chance de um suicida que dá entrada em um hospital sofrer maus tratos, preconceito, falta de atenção e cuidados?
Infelizmente a chance disso acontecer é imensa e é grave. E é sobre essa discussão que quero trazer aqui para vocês, leitores. 
Existe um estigma em nossa sociedade em torno do suicídio, e é muito comum presenciar as reações da equipe médica com “brincadeiras” de mau gosto, e procedimentos agressivos. 
Quando uma pessoa que atenta contra a própria vida dá entrada no hospital, muitas vezes a equipe médica e de enfermagem que a atende não possuem a capacitação necessária para realizar o acolhimento, ou um tratamento digno a qualquer ser humano.
Para algumas pessoas da área da saúde, essas pessoas não merecem acolhimento, atenção e cuidado porque segundo elas, estão ali para cuidarem de quem quer viver, e um suicida é alguém que só “dá trabalho”, não merece atenção, além de gerar custos para o plano de saúde. 
Porém, a equipe esquece-se que essa pessoa também está doente, que depressão é um problema grave, mas a doença da alma não aparece em nenhum exame. 
É claro que não podemos generalizar. Não estou afirmando que todos tratam dessa forma, há equipes muito bem capacitadas que oferecem um tratamento humanizado.
No entanto, o mínimo que esperamos de um profissional da saúde é que ele acolha sem julgar, e dispense seus valores morais em relação às pessoas que atentam contra a própria vida.
Se um profissional que trabalha com indivíduos que estão em seus momentos mais frágeis, pensam que depressão é frescura, falta de Deus, ou esses clichês que ouvimos muito por aí, imaginem uma pessoa que não tem noção alguma disso?
As equipes não precisam ser especialistas em suicídio, mas um tratamento humanizado e digno é direito para qualquer ser humano. 
O artigo “Tentativas de suicídio e o acolhimento nos serviços de urgência: a percepção de quem tenta” publicado em 2013, destaca alguns relatos que trago aqui como importante contribuição a respeito da nossa discussão.
Foram entrevistados pelos autores 28 mulheres com histórico de tentativa de suicídio que haviam sido referenciados num serviço de urgência no município de Barbacena, em Minas Gerais. 
 Alguns dos relatos das entrevistadas:
“No hospital eu lembro que o médico chegou perto de mim, bateu no meu ombro, falou que eu não tinha nada, que eu era uma moça bonita, pra viver minha vida, que era pra arrumar um namorado”.
“A reação das pessoas, dos médicos, quando eu tomava remédio e ia pro hospital, sempre que eu chegava, as enfermeiras e o médico falavam ‘tem juízo não? vaso ruim não quebra, entra na frente de um trem […] remédio não mata não, remédio melhora”.
“As enfermeiras falavam ´toma chumbinho, água de bateria, não adianta vir pra cá, tomar remédio, só dá trabalho pra gente´. Eu me sentia um rato quando tentava, quando elas me falavam ficava pior ainda. Por que elas não falaram que eu precisava era de um psiquiatra? Elas falavam “vai pra casa e dorme bastante, isso não é nada, isso vai passar”.
Infelizmente essas falas são uma realidade para quem trabalha na área de prevenção e posvenção do suicídio. É importante ressaltar que os resultados não podem ser generalizados, uma vez que existem muitos serviços de saúde que sensibilizam os profissionais para o acolhimento mais humanizado para essas pessoas que chegaram em um nível de sofrimento tão intenso a ponto de desistir da vida. 
Por fim, destaco também uma falha nos cursos na área de saúde que não abordam o comportamento do suicida, com isso, o senso comum acaba adentrando-se nos hospitais chegando até a essas pessoas e suas famílias que sofrem ainda mais com esses maus tratos por parte da equipe. 
Por isso, fica aqui o alerta: Suicídio não é frescura, não é falta de Deus, não é para chamar a atenção, e embora a dor da alma não apareça em nenhum exame, essas pessoas merecem o mesmo ou maior cuidado e acolhimento que qualquer outro ser humano. 
É preciso quebrar o tabu sobre o suicídio, falarmos sobre a posvenção, e desmitificar a depressão, inclusive, na área médica. 
Simony Thomazini

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Setembro Amarelo: Falar sobre suicídio é prevenir!



Setembro é o mês de prevenção ao suicídio. Em referência ao “Setembro Amarelo” escreverei alguns textos sobre este tema que ainda é um tabu em nossa sociedade.
De acordo com a OMS (Organização Mundial de Saúde) mais de 90% dos casos de suicídio estão associados a algum estado depressivo em que a pessoa possa estar vivenciando. Portanto, podem ser evitados, se as causas forem tratadas corretamente.
No Brasil, 32 brasileiros tiram a própria vida por dia, o que equivale a uma pessoa a cada 45 minutos. No mundo ocorre um suicídio a cada 40 segundos. Por essa razão que as ações preventivas são de extrema importância para reverter esta situação. Escrever sobre essa temática, portanto, prevenir, é o meu objetivo durante esse mês.
Falar de suicídio não agrava a situação, pelo contrário, é uma ação preventiva. O CVV (Centro de Valorização a Vida) aposta nisso e possui uma conversa aberta ao suicídio através do atendimento gratuito e voluntário pelo número de telefone: 188. 
A pessoa que possui desejos suicidas não quer acabar com a própria vida, mas colocar um fim na dor. E é sobre a dor que discutirei hoje. É preciso falar incansavelmente sobre ela. É preciso que ela ganhe voz, para não se tornar ato.
Acostumar-se aquilo que faz mal, bem como ficar fixado nesta posição, traz inúmeros sofrimentos ao sujeito. Não é saudável silenciar-se diante daquilo que dói, porém, o sujeito acomodado em sua dor, não age porque acredita possuir certo controle em meio a seu sofrimento.
O que acontece, no entanto, é que o controle ao caos em que o indivíduo vive e está apegado, é falso, e em algum momento, o peso das palavras não ditas irão recair sobre ele provocando um maior e intenso sofrimento.
É nesse momento, que uma análise (ou em outras palavras, psicoterapia) permitirá que o sujeito possa despregar-se desta posição fixada de sofrimento, pois é só movido por um desejo em mudar isso, é que uma análise pode funcionar.
Assim, mais do que querer “parar de sofrer" a pessoa em análise passa a apropriar-se de suas queixas, escolhas, dando um outro lugar para tudo isso. O lugar de um fazer melhor com a sua própria existência!
Falar sempre salva. Se você está sofrendo, ou conhece alguém que está passando por algum estado depressivo decorrente de alguma vivência, procure a ajuda de um profissional.
Simony Thomazini