sexta-feira, 19 de julho de 2019

O que acontece depois que se é feliz?

Imagem: Unsplash

“Reza a lenda que a gente nasceu para ser feliz”, diz um trecho da música ‘Nada fácil’ do Engenheiros do Hawaii. Pode parecer óbvio perguntar se as pessoas querem ser felizes, não? No entanto, a felicidade não parece ser algo fácil e simples como se pensa. E é sobre isso que irei discutir na coluna de hoje.

Em geral, colocamos a culpa de nossa insatisfação com a vida em fatores exteriores, por exemplo: “se eu tivesse dinheiro suficiente seria feliz”, “não sou feliz porque não tenho tal emprego, não tenho amor, não tenho x coisas que poderiam me trazer felicidade”, etc.

Mas, a questão que eu faço a vocês é:

O que acontece quando a gente consegue o que quer?

Sobre isso, Clarice Lispector no livro: “Perto do Coração Selvagem” também nos faz refletir quando escreve: “Queria saber: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois?”

Nesse sentido, pode-se dizer que ser feliz não diz tanto ao que se quer, mas a suportar ser feliz.

Afirmar isso pode soar forte, presunçoso, uma vez em que raramente as pessoas acreditam ter dificuldades de suportar ou tolerar a alegria, o bem-estar, a satisfação. Porém, o que vemos na clínica psicanalítica demonstra que isso acontece sim, infelizmente. E explico o porquê.

Cada pessoa possui uma quantidade aceitável de satisfação ou felicidade em sua vida. Em geral, essa quantidade é mínima. Isso significa que, mesmo sem saber, busca-se muito mais o sofrimento do que o bem-estar. Pode-se até dizer de pessoas que rejeitam isso quando atinge certo limite.

Goethe, escritor alemão disse certa vez: “nada é mais difícil de suportar do que a sucessão de dias belos.”

Para muitas pessoas, a felicidade, ou a satisfação é evitada quando se atingem os objetivos. Trata-se da conhecida e famosa “autossabotagem”, isto é, o esforço inconsciente para impedir que se chegue ao seus desejos.

 O sujeito pode até conseguir pequenas coisas, mas quando está prestes a realizar algo importante, fracassa. E isso acontece repetidamente ao longo de sua vida.

Para outros, apesar de não haver esses comportamentos na realização de suas ações, falha na capacidade em usufruir daquilo que consegue. Ou seja, embora a pessoa obtenha sucesso profissional, amor, amizade, etc, pouco disso vem a ser usufruído.

Com isso, o sujeito foca seus esforços em obter cada vez mais, e esquece-se de cultivar aquilo que já possui. E aí, a insatisfação e as queixas estão instaladas vivendo em constante luta e sofrimento consigo mesmo e com os outros.

Em contrapartida, há aqueles que possuem poucos atributos (sucesso profissional, amor, amizades, etc) mas, conseguem cultivar suas conquistas obtendo uma vida satisfatória e feliz.

Questões como essas foram analisadas por Freud. Foi verificado por ele um sentimento intenso de culpa inconsciente na maioria das pessoas, que por razões diversas, são incapazes de aceitar a felicidade, pois acreditam não serem merecedoras deste sentimento.
Essa culpa excessiva, segundo ele, é o que demonstra como algumas pessoas possuem enormes dificuldades em melhorar, por mais que queiram conscientemente, mudar sua maneira de ser.
É desse sentimento de culpa que surge a “autossabotagem” na realização de desejos ou na impossibilidade de poder usufruir de suas conquistas. Na maioria dos casos, a pessoa não percebe essa culpa, uma vez que ela é inconsciente, ou ainda, quando se dá conta, não sabe as razões que os levam a fazer o que fazem.

Esses sentimentos contraditórios normalmente já fazem parte da história do sujeito há muito tempo e ficaram alojados em suas memórias, geralmente desde a infância.

Em um processo analítico, essa culpa é primeiramente percebida, e, aos poucos, é trabalhada até que gradualmente se desfaça. Isso faz com que ele não só obtenha o que deseja na vida, mas, principalmente, que consiga usufruir desses feitos.

Em outras palavras, dizemos que o sujeito passa a tolerar o aumento da quantidade de felicidade e satisfação em sua vida.

Encerro deixando uma provocação e reflexão a respeito do que foi discutido:

Quanta felicidade você consegue suportar?


        

terça-feira, 16 de julho de 2019

Sobre a vida e o medo de mudanças


Imagem: Unsplash

Um poeta português chamado Luís de Camões escreveu certa vez:“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.Muda-se o ser, muda-se a confiança. Todo o mundo é composto de mudança. Tomando sempre novas qualidades”.
Mudar é inevitável em nossa jornada. E não seria possível que a vida fluísse sem as mudanças. Mas, por que o novo gera medo? Por que sair da zona de conforto que criamos é tão difícil?
Se você fizesse uma pequena avaliação sobre o que aconteceu contigo nesses últimos 6 meses de 2019, certamente encontraria mudanças. Algumas vezes imperceptíveis, mas se olharmos mais atentamente e com mais cuidado, iremos notar que elas estão lá. 
O medo da mudança surge quando estamos acomodados às situações. O ser humano adapta-se muito facilmente aos ambientes em que vive. Jean- Paul Sartre, filósofo e escritor francês diz que: “O pior mal é aquele ao qual nos acostumamos”. 
Acostumar-se com aquilo que nos faz mal traz inúmeros malefícios a saúde física e mental. E aí teríamos uma série de exemplos com as quais as pessoas se queixam, mas não mudam porque tem medo. 
Mas, medo do quê? Medo de sair de uma vida miserável? Medo de tornar a vida um lugar melhor para se viver?
A estagnação frustra muito mais, a monotonia chateia, o previsível desengaja. Você já não ouviu falar, por exemplo,de que a concorrência é boa para os negócios? E é boa no sentido de fazer as pessoas pensarem, engajaram-se naquilo que acreditam. Em procurar meios de mudar seus serviços para melhor atender seus clientes. Há lugar para todos debaixo do sol, mas, possuir um diferencial, e, portanto, mudar, é sempre mais atrativo.
Estamos atravessados pelas mudanças. O sempre igual cansa. Todas as etapas de nossa vida são marcadas por passagens de uma coisa à outra. Todas com sofrimento. Não é possível evoluir sem os fracassos, sem as dores.
 São essas passagens que formam a personalidade de uma pessoa.  São essas mudanças que nos impulsionam à frente.
Às vezes as mudanças ocorrem rapidamente, outras se dão através de ciclos longos. E são difíceis, sempre! No entanto, são passageiras, pois, logo nos adaptaremos a nova realidade, até que uma nova e possível mudança surja e precisaremos recomeçar de novo! Esse é o ciclo da vida e é assim pra todo mundo.
Quando algo não mais nos satisfaz, quando as coisas que fazemos não mais desperta entusiasmo e não encontramos meios de continuar com aquilo, quando certas situações nos causam demasiado sofrimento, é certo que é preciso fazer algo. É preciso mudar!
A vida é sempre sobre travessias. 
Encerro o texto de hoje com um trecho de um poema de Fernando Pessoa:
Não sei quantas almas tenho
“Não sei quantas almas tenho
Cada momento mudei 
Continuamente me estranho
Nunca me vi nem acabei
De tanto ser, só tenho alma
Quem tem alma não tem calma.” 
Simony Thomazini

segunda-feira, 15 de julho de 2019

O que é TOC - Transtorno Obsessivo Compulsivo?




Imagem: Unsplash


TOC é o Transtorno Obsessivo Compulsivo de acordo com o Manual Estatístico dos Transtornos Mentais da Associação psiquiátrica americana ou o Manual do CID, proposto pela Organização Mundial da Saúde. 
Segundo a psicanálise, o TOC é um sofrimento psíquico cujo sintoma principal são as obsessões. 
Entende-se por obsessões, os fenômenos do pensamento. É aquela ideia que invade a pessoa contra a sua própria vontade. Por exemplo: Eu sei que fechei a porta de casa, mas sou assaltada pela dúvida de que talvez eu não tenha feito isso, ou não fiz isso muito bem, de forma que eu preciso voltar e conferir se de fato, fechei a porta da casa. 
Esse exemplo é uma ideia obsessiva simples que acontece em geral com as pessoas, e muito provavelmente já tenha acontecido com você mais de uma vez. Mas, imaginem que em alguns indivíduos isso domine completamente a relação dele com o mundo e as outras pessoas. Esse sujeito é assaltado constantemente pelas dúvidas a tal ponto que sua vida passa a ser governada por essas ideias obsessivas.
Por exemplo: Imaginem que o sujeito abra o Jornal Noroeste e se depare com uma notícia de um assassinato, lhe ocorrendo o pensamento de que talvez ele tenha sido o autor daquele crime. Mesmo sabendo, e possuindo a absoluta certeza de que não foi ele que matou, pois, não é um assassino, um criminoso, ele pode pensar que sim. 
Essa ideia pode parecer absurda para você, (e é bem provável que ele jamais diga isso em voz alta) mas, acontece com algumas pessoas. 
Ideias como essa, possui um caráter intrusivo, ou seja, invade a pessoa contra a sua própria vontade. Também possui um caráter egodistônico, isto é, confronta o ego causando uma desarmonia, passando a assediar o sujeito sistematicamente.
Algumas outras ideias também podem ocorrer com pessoas queridas, possuindo um sistema de pensamento supersticioso. Por exemplo: Pensei nisso, será que isso teve alguma relação com aquilo que aconteceu a tal pessoa? Ou então: Aconteceu tal coisa com uma pessoa querida para mim. Será que de alguma forma, com o meu pensamento, não contribuí para que isso acontecesse?
Todas essas relações que se colocam para a pessoa como desarmônicas, compõem o quadro das obsessões. 
Freud dizia que essas ideias obsessivas, ou obsessões, substituem ideias primeiras na qual o próprio indivíduo não consegue aceitar muito bem. Geralmente elas estão ligadas a contrariedades de valores morais, a sexualidade, a morte, e a eventos traumáticos vivenciados pelo sujeito em que ele pode dizer: “Não posso ter pensado nisso.” Nesse momento, o pensamento que ele teve é substituído por outro parecido, porém, é outro pensamento sem lógica, sem sentido ao resto da vida dessa pessoa.
A partir disso, esse pensamento sem nexo, desagradável, irá assediá-lo constantemente contra a sua própria vontade, passando a fazer parte de sua vida. 
Num determinado momento, a obsessão começa a vacilar, aquela primeira ideia imoral, sexual, portanto, intolerável para o sujeito, vem a ser substituída pela segunda, e o mecanismo que sustentava essa ideia passa a falhar, ligando as coisas novamente. Aqui, temos o segundo momento do quadro, muito mais grave em que se passa das obsessões, ou seja, fenômenos do pensamento, para as compulsões, fenômenos do comportamento. 
A compulsão é o que leva o sujeito a lavar as mãos repetidamente, a contar os azulejos do banheiro enquanto se toma banho, a andar na linha, a ter que fazer uma coisa antes da outra, senão algo pode acontecer, ou dar errado. E isso vai se desdobrando a ponto de, às vezes, tomar conta da vida da pessoa. Com isso, a maior parte de sua vida útil acaba sendo dedicada a manutenção dessas compulsões e obsessões. 
Dito isso, os quadros de obsessões e compulsões são tratáveis pela psicanálise sem o auxílio de medicamentos. Basta que o próprio sujeito se incomode a tal ponto em querer acabar com este sofrimento e procure ajuda. 
Simony Thomazini

Texto Publicado no Jornal Noroeste

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Síndrome do Pânico: sentimento de desamparo


Conhecida como “Síndrome do Pânico” ou “Transtorno do Pânico”, é uma categoria classificada pela psiquiatria contemporânea no ‘Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais’, assim como também está no ‘Código Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde’. 
Não será minha pretensão aqui discorrer sobre a classificação de sintomas que a psiquiatria descreve, mas fazer uma problematização entre os dois campos, ou seja, psiquiatria e psicanálise, e suas contribuições diante do pânico.
Sob a perspectiva psicanalítica, “o pânico corresponde a um afeto extremo de angústia despertado pelo confronto súbito do sujeito com seu desamparo”, explica a psicanalista Lucianne Sant’Anna de Menezes, professora da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), e autora de Pânico: efeito do desamparo na contemporaneidade, um estudo psicanalítico.
Mas, o que quer dizer esse desamparo? Explico:
Todos nós somos seres desamparados. Não possuímos garantia alguma da vida. Podemos morrer a qualquer momento, porém, seguimos vivendo em nosso cotidiano incorporando os riscos desse jogo de viver.
Porém, para certas pessoas, esse desamparo é insuperável, e está envolto a um ideal de proteção onipotente, garantindo ao sujeito uma estabilidade diante do mundo, bem como de seu mundo psíquico. Esse ideal está organizado longe das incertezas, da falta de garantias e de indefinições, isto é, longe da angústia!
É inegável a contribuição dos medicamentos trazendo benefícios na vida destes pacientes. Os remédios aliviam aqueles sentimentos terríficos, desesperadores, e, por vezes, paralisantes, como, por exemplo, o medo de sair de casa para trabalhar. No entanto, é importante ressaltar que o paciente não deposite apenas no remédio a reorganização de sua vida, passando a questionar-se ao que ocorre com ele.
No que se refere à manifestação do pânico na atualidade, podemos dizer que correspondem a certas formas de sofrimento psíquico diante da manifestação subjetiva de nossa sociedade atual. 
Há alguns ideais predominantes na contemporaneidade, tais como: a exaltação sem medida de si mesmo, do eu, e da existência como imagem estética. Há também a valorização do “exterior” em detrimento do “interior”, pois, o que interessa é o sucesso a qualquer preço, a imediatez das coisas.
A consequência disso é o apagamento do sujeito reduzindo-o a mera dimensão de sua imagem. Assim, o pânico expressa o fracasso em atender esses ideais e exigências que a sociedade atual impõe ganhando cada vez mais espaço na cena social. Podemos dizer que hoje existe um processo de produção social do pânico.
Como é o tratamento?
Levar o paciente a questionar-se acerca de seu sofrimento, a querer falar, procurar dar sentido, a partir de sua história, ao que parece não ter sentido: os ataques súbitos de pânico. 
A psicanálise pode ajudar a criar junto ao paciente condições para que ele possa colocar-se naquilo que sofre, interrogando-se sobre o seu desamparo. Como já foi dito anteriormente, a condição de desamparo encontra-se envolta a um ideal protetor onipotente, que garante ao sujeito a estabilidade de um mundo organizado longe das incertezas e da falta de garantias da vida.
É comum em quem sofre de pânico, possuir um apego dependente e concreto a alguém ou a alguma situação que lhe garanta estabilidade. Por exemplo, necessita de uma pessoa que o acompanhe aos lugares que precisa ir. Porém, ele tem a consciência, de que a presença dessa pessoa não mudará em nada, mas necessita desta presença para que se cumpra o papel de um objeto fiador de sua existência (ideal protetor) garantindo a estabilidade de seu mundo.
Essa ação se dá como uma forma de compensação a sua incapacidade de lidar com a falta de garantias, e ilusoriamente, o livra do confronto com o desamparo. Podemos dizer que o apego ao remédio tem significado semelhante.
Dito isso, só quem pode escutar e dar sentido à essa angústia, é o sujeito que a sente, e esta é, inclusive, sua maior dificuldade: decidir saber mais sobre o seu sofrimento. No entanto, não saber nomeá-la, simbolizá-la, constitui-se num motivo gerador de mais angústia. Daí, o pânico. 
Como escutar um grito de pânico “sem sentido” se não com a ajuda das palavras? 

Simony Thomazini

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Como os homens amam?

Imagem: Unsplash


Não é possível abordar esse tema sem antes expor a seguinte questão: o que é ser homem hoje? É ser machão? É ser heterossexual? E ainda, por que um homossexual não seria um homem? Essas questões nos remetem ao fato de que há uma confusão, evidenciando, portanto, que a vida contemporânea nos traz uma ruptura aos antigos padrões.

            O homem e o amor

O homem há algum tempo atrás, era aquele que estava seguro na relação amorosa com a mulher. Ele poderia saber o que sentia, e se via como possuidor do que desejava a (sua) mulher, isto é, sua própria masculinidade.

Ser homem aqui significava ser o portador daquilo que satisfaz o desejo de uma mulher, ou seja, o que pode transmitir uma orientação e apaziguamento a aflição feminina. Nesse sentido, ser homem é possuir a condição necessária para prover. E com isso, estar no poder. De modo geral, podemos dizer que, na história humana, o poder sempre foi “coisa de macho”.

 Como amava o homem cujo pai era severo, e sua vontade era muitas vezes expressa num único olhar enfurecido? Esse homem não foi “ensinado” para amar, mas, sim, para ser amado. E amar fragiliza, enfraquece, gera dependências em relação ao objeto amado.

Diante desse contexto, o amor diz respeito mais à mulher. Por isso que esse Homem com maiúscula perde as suas forças enfraquecendo-se por amor, podendo, diante disso, ser taxado de “mulherzinha”.

Por outro lado, o que vemos muito atualmente, é um ideal de homem encarnado, muitas vezes, num Don Juan, um “pegador”, aquele homem sedutor que arrebata toda e qualquer mulher.

Essa concepção de homem vai de encontro com a queixa de muitas mulheres quando dizem que os homens hoje não se apegam, não se apaixonam, querendo apenas sexo, sendo assim, fogem do amor, do compromisso, etc.

 O sociólogo Zygmunt Bauman nos convoca a pensar sobre esse ponto quando em “Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos” diz a respeito da superficialidade dos amores na vida contemporânea, e a liquidez dos amores que se desfazem antes mesmo de começarem.

Todavia, mesmo diante de todo o contexto apresentado, nos tempos atuais, esse homem, livre e desapegado, passou a amar! No entanto, é um terreno totalmente desconhecido para ele, dominado apenas pelas mulheres.

Assim, quando um homem perde a mulher que ama, ou se separa dela, é como se uma parte dele mesmo, fosse cortada fora.

É aqui que a clínica psicanalítica evidencia hoje, homens surpresos e traumatizados com aquilo que se mostra desconhecido e totalmente inesperado para eles: o fato de que a mulher que ele ama possa, em determinado momento, viver muito bem sem ele. A separação para um homem é sempre muito mais pesarosa e difícil do que para uma mulher.

Portanto, podemos dizer que a superação de um amor perdido também passou a ser problema de homem. E com isso, talvez, pode-se dizer aquelas mulheres que se queixam de que o homem não se envolve, pelo menos em alguns casos, ao fato deles não terem superado um relacionamento traumático anterior, ou seja, um amor que deu errado.

Segundo a psicanálise, o seu inconsciente está sob o efeito do que Freud chamou de “fixação da libido”. Nesse sentido, não estariam livres para vivenciar um novo amor, passando, assim, a desfrutarem apenas do sexo.

Como amar sem perder a virilidade?

O desafio hoje é de que o homem possa amar e ao mesmo tempo preservar a sua virilidade. Porque amar implica estar numa posição feminina, portanto, o amor feminiza, e como ser viril e feminino ao mesmo tempo?

 Isso só será possível quando o homem não buscar na mulher aquilo que falta a ele. Quando ele se der conta de que essa mulher não é parte de si mesmo, mas alguém que é outra, e, portanto, diferente dele.

 Dessa forma, o homem necessitaria fazer o luto de encontrar em sua parceira a sua própria falta. E sabemos que o luto é um processo doloroso, triste, mas leva ao desapego. Só assim para que o objeto amado não se torne insubstituível e ele possa, enfim, compreender, que um novo encontro amoroso pode estar sempre ao seu alcance.




O que quer uma mulher?

“ Les Demoiselles d’Avignon” de Pablo Picasso (1907).

Há muito por dizer a respeito dessa temática sob o ponto de vista da psicanálise, mas nesse texto, discutirei questões sobre a relação desta pergunta com a literatura.
Porém, antes de fazer essa associação, é importante saber que Freud durante 30 anos pesquisou o “continente negro” feminino, expressão utilizada por ele em algumas de suas obras antes de conhecer a sexualidade feminina.
Durante 30 anos de sua pesquisa, ele foi incapaz de responder a pergunta: “O que quer uma mulher?”. Em sua Conferência intitulada “Feminilidade”, Freud a termina nos dizendo para que façamos uma consulta aos poetas, ou aguardemos para que a ciência responda a essa pergunta. 
Muito discutida até hoje entre os psicanalistas e tema debatido em diversos trabalhos acadêmicos, inclusive o meu, como artigo de final de graduação, essa pergunta nos traz inúmeras inquietações e distintas respostas, como já havida nos sugerido Freud, tanto entre os poetas, e a arte em geral, como, na própria psicanálise.
A escritora Simone de Beauvoir em seu livro: “O segundo sexo” escreveu: “Não se nasce mulher, torna-se mulher.” E as mulheres, existem uma a uma. Querem ser amadas, ser mãe, ser aquilo que puderem ser. E isso se dá devido a uma construção que se inicia desde os primórdios da relação mãe e filha.
Todavia, como enunciei no início desde artigo, não será minha pretensão discorrer sobre questões psicanalíticas mais complexas a respeito do tema.
Uma mulher não quer ser compreendida, embora ela peça e reivindique por isso, seu desejo é sempre outro, pela coisa e pelo seu oposto ao mesmo tempo. E várias escritoras através de suas personagens femininas, nos trazem esses dilemas. A mulher carrega em si mesma um enigma, cada uma, em sua particularidade.
Uma escritora que tenho profunda admiração, e pode nos dar uma das possíveis respostas a esta pergunta é Clarice Lispector. Em seu livro: “A paixão segundo G.H”, a personagem G.H diz que: “Mas não procure entender-me. Faz-me apenas companhia”.
Nesta frase vemos declarada a importância da presença para uma mulher. Por essa razão que a mulher deseja a coisa e o oposto da coisa ao mesmo tempo. Ela deseja um mais além ao ato de ser compreendida. Como desejar a compreensão de alguém sem que ela não ofereça sua companhia? 
As mulheres existem uma a uma, como já foi dito, e cada mulher quer a liberdade de ser o que ela quiser ser. Há inúmeras respostas, porém sempre incompletas e controversas, tal como a mulher.
E elas seguem sendo, reinventando-se, e recriando caminhos nessa árdua tarefa em ser. Há multidões em volta de uma única mulher, e não há fórmulas que se aplique a todas, porque elas são e serão sempre não-todas.
O que quer uma mulher? Que cada uma possa inventar suas próprias respostas. 
Simony Thomazini