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| Foto: Unsplash |
Hoje vemos
com frequência discursos motivacionais que induzem às pessoas a, ilusoriamente,
‘realizarem-se’.
De acordo
com o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han autor de “Sociedade do Cansaço”,
acredita-se que as pessoas se exploram acreditando que isso lhes trará
realização.
A BBC
Brasil divulgou uma matéria recentemente com o título “por que o mantra ‘faça o
que você ama e você nunca terá que trabalhar um dia na vida’ é uma armadilha”.
Esse
estudo demonstrou que, assim como na vida amorosa, estar encantado por algo,
neste caso, o trabalho – pode “cegar” as pessoas fazendo com que desenvolvam
funções que não foram contratadas para fazer.
Para
alguns autores, a partir do fato de que os trabalhadores gostam do que fazem,
os gestores atribuem à execução de tarefas extras. Esse movimento acarreta
muitas vezes a piores condições de trabalho.
O fenômeno
estudado é chamado de “legitimação da exploração da paixão.” Nesse sentido, os
autores demonstram que, ainda que a paixão pelo trabalho seja positiva, ela
pode levar a práticas nocivas de gestão e exploração de mão de obra.
Essa
exploração pode ser vista a partir do momento em que a gerência com seus
próprios objetivos e interesses, bem como os objetivos dos proprietários,
exigem dos funcionários o trabalho excessivo, muitas vezes envolvendo-se em
tarefas degradantes sem o pagamento adicional ou recompensas dignas.
E assim
vemos trabalhadores fazendo hora extra, ficando longe da família, trabalhando
aos finais de semana sem compensação, e até mesmo ouvindo, por vezes, insultos
e cobranças excessivas. Esses comportamentos são tidos como justificáveis sob o
ponto de vista da sociedade daquelas pessoas apaixonadas pelo trabalho.
Produzir, produzir, produzir
Fazer o
que a gente gosta inevitavelmente não nos trará apenas realizações. Haverá
frustrações, estresses, cansaço. Porém, o que vemos atualmente é uma ditadura
da produtividade. Temos que produzir, e produzir muito, segundo os discursos
motivacionais, para sermos reconhecidos.
O fílósofo Byung-Chul Han diz que diante do aumento da
potencialização do desempenho de cada pessoa, não se consegue reconhecer o
próprio trabalho, ou a capacidade de sentir-se frustrado e de perceber o que é
incapaz de realizar.
Ainda para o filósofo, criamos uma imagem de alguém que é
capaz de múltiplas tarefas e incapazes de dizer não. Alguém que alcança níveis
de autoexploração doentios, possível através dessa ideia do excesso de
produtividade.
O livro “Sociedade do Cansaço” de Byung-Chul Han e o
estudo divulgado pela BBC Brasil formam uma complexa e árdua legitimação entre
o indivíduo explorado e autoexplorado.
E como as pessoas se autoexploram hoje?
Através de
receitas de sucessos lidas muitas vezes na internet. O instagram é, por
excelência, o porta voz dessas receitas para a tal da realização pessoal e
profissional.
Com isso, as pessoas
atropelam a si mesmas numa tentativa de viver uma vida, que segundo, aqueles
discursos, lhe darão visibilidade no mercado de trabalho e realização pessoal.
Temos alguns exemplos como, acordar às 5h da manhã, meditar ou usar o tempo livre para
fazer algo relacionado ao trabalho. Existem algumas frases que viralizaram na
internet tais como: “Estude enquanto eles dormem”, “Trabalhe, enquanto eles se
divertem”, “Lute enquanto eles descansam”, etc.
Talvez essas coisas até funcionem para algumas pessoas,
mas não funcionará para todo mundo. E é aí que mora o grande perigo. Incapazes de
reconhecer o que funciona ou não para si mesmo tomam esse discurso como verdade
única, e autoexploram-se na realização de seus objetivos.
O paradoxo nisso tudo é que a produtividade não se
alcança pela quantidade, mas pela qualidade. Ou seja, não é acordando às 5h da
manhã que você se tornará mais produtivo. Porém, como foi dito, pode funcionar
para algumas pessoas.
Apenas quando organiza-se a rotina de acordo com as
nossas próprias vontades e capacidades, entendendo o que podemos dar conta, o
que é possível, é que pode-se obter bons resultados.
O poder do “não”
O jornalista Ricardo
Boechat, que faleceu recentemente, disse certa vez a um representante de uma
editora quando foi convidado para escrever um livro:
“Agradeço,
sinceramente, por seu interesse. Mas lhe asseguro, do fundo do coração, que a
última ideia que me passa pela cabeça – aliás, nem passa! – é escrever um
livro.”
É muito
comum dizermos “sim” no trabalho quando queremos dizer “não”. E os motivos são
diversos. Pode ser pelo fato de querermos uma promoção ou porque queremos
agradar o chefe. Ou ainda, para poder ser bem visto pelas outras pessoas como
um excelente profissional, dentre outras tantas razões.
Em busca pela realização profissional aceita-se muita
coisa por medo. Medo de ser demitido, medo do que os outros vão pensar e medo
de não ser reconhecido.
Mas, o que realmente trará realização profissional, ou
seja lá, como você prefere denominar o sucesso profissional, e até mesmo,
pessoal, é quando toma-se a própria agenda como prioridade. Quando o foco é
naquilo que gostamos, e podemos fazer, sendo produtivos de acordo com o nosso
tempo e habilidades.
Eu poderia encerrar este texto dizendo para você fazer
isso ou aquilo, ou enumerar dicas para se alcançar o sucesso, mas, o objetivo
deste texto é justamente o oposto disso. Apenas digo a vocês:
Façam o que desejam.

