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| Marguerite Duras in France, 1955. Photograph: Robert Doisneau |
O que me faz escrever sobre Marguerite Duras é minha nova pesquisa. Escolhi Duras devido a sua escrita visceral e a maneira pela qual ela nos envolve com suas palavras. A identificação com a maneira de escrever de Duras foi instantânea. Foi 'amor à primeira escrita', e se deu com o livro "A dor". Um outro motivo é a temática que venho propondo no blog a respeito da feminilidade, e bem retratada no livro "O amante" na relação entre mãe e filha a qual descreverei a seguir. No entanto, não é esse o objetivo de minha nova pesquisa, uma vez que o mesmo (ainda passível de mudanças) é a respeito de uma possível semelhança entre a escrita de Marguerite Duras ao que chamamos de "travessia pela escrita" e a "travessia do fantasma" do final de análise. Refiro-me aqui ao final de uma análise pessoal. Para quem desconhece os termos "travessia pela escrita" e "travessia do fantasma", eu explicarei num outro momento aqui no blog. Alguns outros termos lacanianos podem ser melhor compreendidos através das notas de rodapé ao final do texto.
Marguerite Duras nasceu na Indochina Francesa no dia 04 de abril de 1914. Ao longo de suas obras pode-se notar a presença do tema da escrita como uma força visceral e uma paixão avassaladora.
"Escrever, essa foi a única coisa que habitou a minha vida e que a encantou. Eu o fiz. A escrita não me abandonou nunca" (DURAS, 1994, p. 15).
É em torno da solidão e do desamparo que a escrita de Duras faz o seu contorno.
Aos 70 anos publica o livro "O amante", obra esta considerada a mais autobiográfica (embora todas as outras também contenham registros subjetivos da história da autora).
É interessante ressaltar que o título do livro "O amante" não corresponde necessariamente à temática abordada por Duras na trama, que se dá em torno da relação mãe e filha. A mãe, segundo a autora, é louca, desesperada, amada e odiada, como ela mesma diz: "a porcaria, minha mãe, meu amor". (O amante, p.21)
Nesse sentido, é por meio da escrita que Duras contorna o Real imposto pela devastação materna¹. Diante da relação que a menina (personagem do livro e sem nome - característica comum de suas obras) mantém com o amante chinês, nota-se a figura da mãe sempre presente e como destaque da trama:
"Digo que vou me desgarrar de minha mãe, que um dia nem mais amor sentirei por ela. Choro. Ele descansa a cabeça em mim e chora por me ver chorar. Digo que a minha infância, a infelicidade de minha mãe ocupou o lugar do sonho. Que o sonho era a minha mãe e nunca as árvores de Natal, somente ela, sempre (...) (O amante, p.36).
Percebe-se aqui uma estreita relação entre o gozo sexual e a mãe para além do fálico, implicando assim, numa relação devastadora. Esse gozo é descrito por Duras como extenuante, angustiante e da ordem do infinito, ou em suas palavras: "um gozo de morrer" (O amante, p.65)
Sobre essa relação enigmática entre o gozo sexual e a morte, o psicanalista Coutinho Jorge (2008) diz que é possível notá-las em manifestações linguageiras, como por exemplo, na expressão francesa "petite mort" que significa "orgasmo", evocando a morte em sua própria expressão, ou seja, em si mesma. É a partir desse gozo sexual como insinuante da "Coisa" (Das Ding)² que faz com que o sujeito se aproxime de uma pequena parte do absoluto da morte, porém, mediatizada pela Lei e pelo significante.
Assim, em toda obra, nota-se a ambivalência dessa relação da menina com a mãe, a qual é transferido para o homem através de um excesso que é marcado pelo gozo, e transcende o próprio gozo feminino e seus limites fálicos.
O que também parece ficar notável nas obras de Marguerite Duras é a alusão feita ao mar, referindo-se a esse gozo Outro³ catastrófico. É importante ressaltar que o mar é também um cenário presente em muitos outros livros da autora. Nota-se com isso a associação homofônica entre as palavras "La Mer" (o mar) e La Mere (a mãe) marcando assim uma aproximação do gozo sexual com o gozo Outro catastrófico da mãe, sendo que ambos são remetidos ao mar.
Dessa forma, a escrita desse livro se configura como um barragem a esse excesso de gozo numa tentativa de circunscrever o infinito do gozo Outro.
E é nesse sentido que me interessa pesquisar com mais profundidade sobre a escrita de Duras, e que também me parece ter muito a nos ensinar através de suas palavras encantadoras. Espero poder aqui, e de alguma forma, tentar encantar também aos meus leitores por essa paixão visceral que alimento pela autora.
Até breve!
E é nesse sentido que me interessa pesquisar com mais profundidade sobre a escrita de Duras, e que também me parece ter muito a nos ensinar através de suas palavras encantadoras. Espero poder aqui, e de alguma forma, tentar encantar também aos meus leitores por essa paixão visceral que alimento pela autora.
Até breve!
¹"[...] devastação
que é na mulher – para a maioria delas – a relação com sua
mãe, da qual ela parece realmente esperar como mulher mais
subsistência que de seu pai – o que não acontece com ele
sendo segundo, nessa devastação”. (Lacan, "O aturdito". In: Outros Escritos, 2003, p. 21).
²"[...] como um objeto feito para representar a existência do vazio
no centro do real que se chama a Coisa, esse vazio, tal como ele
se apresenta na representação, apresenta-se, efetivamente, como
um nihil, como nada. E é por isso que o oleiro, assim como vocês
para quem eu falo, cria o vaso em torno desse vazio com sua
mão, o cria assim como o criador mítico, ex nihilo, a partir do
furo (Lacan, Seminário Livro 7: a ética da psicanálise, 1959-60, p. 153).
³"[...]para ingressar neste tipo de
gozo do corpo ou gozo Outro, a mulher precisa ultrapassar
o gozo fálico, colocando-se numa posição de passividade,
como objeto do gozo". (Thomazini; Scapin. Feminilidade: explorando os impasses do tornar-se mulher estabelecidos na relação mãe e filha. Revista Uningá Review, 2015, p.4)
Referências: Marguerite Duras "Escrever", 1994.
Marguerite Duras "O amante", 2007.
Marco Antônio Coutinho Jorge "O amor é o que vem em sua suplência à inexistência", 2008.
Vivian Ligeiro "Uma barragem contra o gozo mortífero: a escrita de Marguerite Duras entre o amante e a mãe" Revista de Psicologia, Fortaleza, v.6 n.2, p.90-94 jul/dez 2015
Vivian Ligeiro "Uma barragem contra o gozo mortífero: a escrita de Marguerite Duras entre o amante e a mãe" Revista de Psicologia, Fortaleza, v.6 n.2, p.90-94 jul/dez 2015
