segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Sujeito da Verdade x Verdade do Sujeito



Enquanto lia o livro “A Queda” de Albert Camus pude fazer muitas associações entre o personagem Jean-Baptiste e a Psicanálise, começando pela sua estrutura, que no meu entender é histérica, bem como algumas observações e análises sobre o seu discurso durante todo o livro. Porém, o que me fez escrever este texto, não é a respeito de sua estrutura (embora eu possa falar sobre ela em outro momento), mas, foram duas passagens, em especial, as seguintes: “O gosto pela verdade a qualquer preço é uma paixão que nada poupa e a que nada resiste. É um vício, às vezes um conforto, ou um egoísmo” (p.65) e “As mentiras não conduzem finalmente ao caminho da verdade?” (p. 93).
Neste sentido, primeiramente formulei a seguinte questão: “O que é a Verdade?” E depois: “Podemos dizer que existe uma verdade tida como Universal?”. Busquei a resposta através de uma recapitulação histórica com os seguintes autores: Descartes, Platão, Hegel, Freud e Lacan na qual apresentarei a seguir.

Descartes, no século XVII se propôs a investigar os domínios da subjetividade, sendo que esta, foi por vezes transformada em referencial central e às vezes até, exclusivo para o conhecimento e a verdade. “A verdade habita a consciência” é o que diz os racionalistas e empiristas. A representação seria o lugar onde habita a verdade, de maneira que o problema consistiria em como chegar até ela, se pela via da razão ou pela via da experiência. Tanto um quanto o outro (racionalistas e empiristas) diferem a respeito de qual caminho tomar, mas ambos querem ir ao mesmo lugar, isto é, ao reino da verdade, da universalidade, da identidade. É nesse sentido, que Platão é o grande inspirador e o guia imprescindível dessa caminhada.
O ideal da filosofia moderna continua sendo o da episteme platônica, ou seja, o da Constituição da Ciência, portanto, verdadeiro conhecimento e conhecimento da Verdade.
A decisão platônica de filosofar, ou seja, de fazer ciência, implica em duas atitudes básicas como pontua Garcia-Roza: “1ª) a de recusar ao acontecimento ao fato, uma inteligibilidade própria; 2º) a de impor uma reflexão sobre o estatuto da palavra”.
Platão propõe que esse discurso universal, que não possui nenhum desejo em particular, seja um juiz de todos os outros discursos. Assim, “se a ciência é a revelação do Ser pelo Discurso, é porque há uma correspondência necessária entre o Ser e o Pensamento (ou Discurso). Nisso consiste a Verdade. Isso é Metafísica”. (GARCIA-ROZA, 2004, p.12).

Voltamos então a questão da subjetividade, na qual podemos dizer que sua emergência se deu com Descartes no século XVII, mas,  foi no interior do platonismo que essa questão assumiu o seu lugar. Segundo Garcia-Roza (2004), durante muitos séculos a filosofia esteve às voltas com o problema da substância, porém, não foi porque a subjetividade não estava inserida neste discurso, mas, porque ainda não se tinha constituído como um problema. Neste sentido, é com Descartes que recebe sua primeira formulação. Havia uma incerteza em relação à realidade do mundo objetivo, onde ele afirma a certeza do cogito. Todavia, a resposta de Descartes é tida como incompleta por Hegel, pois, segundo ele, se ela nos diz o que é o pensamento, não nos fala quem é o Eu. Quando fala do ego, não está se referindo a um sujeito, mas uma substância pensante. E se pensarmos que a história da filosofia vê no cogito o fundamento reflexivo do pensamento sobre o homem, esse homem só pode estar presente como um gênero ou como uma espécie. Assim, Descartes não nos fala de um homem concreto, mas de uma natureza humana de uma essência universal. Como diz Garcia- Roza (2004), “Em Descartes, o penso é ameaçado pelo eu”, isto é, é parcial, sem desejo e inclinações pessoais.

Hegel assinala o ponto final na caminhada filosófica. Em “Fenomenologia do espírito” nos diz que não é pela Razão que o indivíduo se tornou humano, mas pelo Desejo. Com isso, é “enquanto Desejo que o homem se revela a si mesmo como um Eu”.  É dessa forma, que o indivíduo se volta para si mesmo, pois, quando eu desejo o outro, na verdade, eu quero que ele me deseje, e isso só é possível através da vida humana e não, como uma substância pensante, referindo assim, a toda a espécie, como nos dizia Descartes.
Neste sentido, Garcia-Roza (2004) descreve: “A passagem do mero “sentimento de si” para a Autoconsciência ocorre quando o desejo se dirige para outro desejo. No entanto, essa Autoconsciência não é ainda uma autoconsciência plena, ela está aprisionada na “certeza subjetiva”.
Esta passagem da certeza subjetiva à verdade objetiva é feita através do código. E Hegel não nos explica, pois a antropogênese pressupõe o simbólico, isto significa dizer que ainda estamos presos na Ideia platônica.
Depois dessa recapitulação histórica, podemos nos perguntar, mas onde situar a psicanálise? Pois bem, a psicanálise provocou a derrubada da razão e da consciência do lugar imaculado de onde estavam. Como? “Ao fazer da consciência, um mero efeito de superfície do Inconsciente”, nas palavras de Garcia-Roza.

Uma outra mudança operada por ela, foi o descentramento do sujeito. Como vimos, em Descartes o sujeito ocupava um lugar privilegiado, lugar este, do conhecimento e da verdade. É esse sujeito do conhecimento que a psicanálise vai desqualificar a partir do qual a verdade aparece. A psicanálise não vai colocar a questão do sujeito da verdade, mas a questão da verdade do sujeito. Ela vai ir contra a unidade do sujeito defendida pelo racionalismo. Assim, a psicanálise vai nos direcionar ao sujeito fendido: “aquele que faz uso da palavra e diz “eu penso”, “eu sou”, e que é identificado por Lacan como sujeito do enunciado (ou sujeito do significado), e aquele outro, sujeito da enunciação (ou sujeito do significante), que se coloca como excêntrico em relação ao sujeito do enunciado".
É nisto que reside aquela inversão lacaniana da máxima de Descartes: “Penso, onde não sou, portanto sou onde não me penso”. Dessa forma, o cogito, não representa o lugar da verdade do sujeito, mas o lugar de seu desconhecimento.
Para tornar mais fácil o entendimento sobre isso, peguei “emprestado” um pequeno esquema do meu professor de Psicanálise que ele fez em uma de suas aulas:
  
Sujeito da verdade             x           Verdade do sujeito
(- Descartes                                          (única, singular, não-toda,    
 - A verdade – O Modelo Universal         parcial.)
 - Guiado pela razão
 - Excluído de seu desejo pessoal)


O sujeito da enunciação é, portanto, o lugar do inconsciente, é a fala da “verdade do sujeito”, na qual é desconhecida, aquele que é excêntrico ao sujeito do enunciado.  Existe uma ruptura entre estes dois sujeitos, o que implica admitir uma duplicidade na mesma pessoa. Nunca saberemos toda a verdade do sujeito. Segundo Freud, é impossível dar a última palavra ao sujeito.
Assim, concluo respondendo ao que me propus no início deste texto. Não existe Uma Verdade Toda, mas sim, a “verdade do sujeito”, que é única, singular e só pode ser produzida pelo mesmo. Quando o personagem se questiona se as mentiras não conduzem ao caminho da verdade, podemos dizer que em última análise, e de maneira literal, podemos afirmar que sim.  Em uma análise, ainda que o sujeito direcione a sua verdade e o saber sobre seu sintoma ao analista, quem sabe da Verdade não é ele, mas sim o sujeito. Ainda que tomado de “mentiras”, ao final é como Freud diz: “De erro em erro vai-se descobrindo toda a verdade”. Porém, é bom ressaltar: é impossível dar a última palavra ao sujeito.

Referências: Freud e o Inconsciente, Luiz Alfredo Garcia-Roza, 2004.


Imagem: Escola de Atenas, de Rafael Sanzio afresco pintado de 1509 a 1510.