sábado, 29 de junho de 2019

Racismo: até quando Brasil?



No último domingo (23) a seleção brasileira foi derrotada pela seleção francesa provocando a sua saída da Copa do Mundo de 2019. Mas, o que foi notícia em algumas mídias sociais, e discuto na coluna de hoje, é sobre os ataques racistas que a zagueira francesa, Wendie Renard, recebeu nas redes sociais durante a partida.

Wendie Renard defende o clube francês Lyon desde os 14 anos, e é vista como um dos nomes mais importantes do elenco feminino.  Tem 28 anos e já venceu 11 campeonatos franceses, 4 Champions League, recebe o terceiro salário maior do futebol feminino, e como escreveu D’Jamila Ribeiro, colunista, blogueira e líder de movimentos feministas e negros, em sua conta no instagram, Wendie, mesmo com todo esse histórico e sua excelente técnica, foi reduzida a “preta do cabelo duro e feio”.

Há quem ainda acredite na inexistência de preconceito de cor. Mas, acontecimentos como estes, infelizmente, são mais comuns do que podemos imaginar. Atualmente as redes sociais são, por excelência, o lugar em que mais presenciamos isso. O que aconteceu com a zagueira francesa é um dentre os milhares de comentários racistas que acontecem todos os dias, nas redes sociais, e fora delas.

Nessa perspectiva, existem também aqueles indivíduos que atribuem ao racismo pauta dos movimentos de esquerda. Ora, a igualdade social pertence a grupos e não a um todo?

Racismo é ainda uma questão mundial sim! E o tema é também muito discutido no Brasil, um país, inclusive, mestiço onde ocorre a mistura principalmente, de negros, brancos e índios. São desde piadas, músicas, comentários, até a violência (de toda e qualquer ordem) que ainda, em tempos atuais se faz muito presente.

O que aconteceu com Wendie ocorre todos os dias. Como muito bem escreveu D’Jamila: “Quantas mulheres negras se violentam para atender a imposição de padrão estético? Quantas feridas causadas no couro cabeludo, na autoestima? Quantas violências no cotidiano escolar? Desde “não vou dançar com a neguinha do cabelo duro” a “por que você não alisa o seu cabelo” (...) Por que Wendie deve atender a um padrão mesmo aquele estabelecido dentro da comunidade, como se não fôssemos diversas?”

O preconceito continuará a existir enquanto o pensamento das pessoas for aquele em que o negro não pode ocupar o mesmo “lugar do branco”. Enquanto o acesso universitário e profissional não representar o cotidiano, enquanto uma mulher, negra, jogadora de futebol, não atender ao padrão estético da sociedade porque a forma como ela usa o cabelo incomoda as outras pessoas.

Somos todos Wendie. A maior expressão do preconceito racial no Brasil é quando tenta-se negar que o preconceito não existe. Ele é pauta atualíssima, e é a prova do quanto precisamos evoluir enquanto brasileiros, e enquanto humanidade.

Não tão distante, um trecho da frase de Haile Selassie, no discurso na Liga das Nações de 1963, e que serviu de inspiração a música de Bob Marley “War”, ainda sobrevive: “Enquanto a cor da pele for mais importante do que o brilho nos olhos, haverá guerra”.

Simony Thomazini

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Precisamos falar sobre o luto




Na vida adulta passamos por inúmeros lutos. O luto não é apenas sinônimo da morte concreta, mas também pode ser uma resposta aos ciclos que se encerram em nossa vida, ao que chamamos de lutos simbólicos. 
Pode ser a perda de um emprego, um divórcio, o rompimento de uma amizade, um namoro, um novo papel social, a passagem da infância à adolescência, dentre outras situações em que há a separação e o término de alguma coisa, assim como também pode ser a morte real de um ente querido.
O que é esperado de uma pessoa que está num processo de luto é a tristeza. Quem está de luto, encontra-se inevitavelmente triste. São perdas que precisarão ser elaboradas. E é necessário tempo para que as dores possam ser expressas.
Porém, o que vemos frequentemente em nossa sociedade é uma deformidade da tristeza, como se fosse um defeito moral. É quase que uma obrigação negar que estamos tristes. Passar por um divórcio, por exemplo, “feliz da vida” é sinônimo de superação, resiliência. Será?
Precisamos vivenciar os lutos. São etapas fundamentais e necessárias para nossa saúde mental. Dopar-se de remédios para silenciar a dor e a tristeza também é outra alternativa para algumas pessoas, mas só faz com que aquilo que precisa ser vivenciado acumule-se dentro da gente.
Sobre isso, Maria Rita Kehl diz: “Ao patologizar a tristeza, perde-se um importante saber sobre a dor de viver. Aos que sofreram o abalo de uma morte importante, de uma doença, de um acidente grave, a medicalização da tristeza ou do luto rouba ao sujeito o tempo necessário para superar o abalo e construir novas referências, e até mesmo outras normas de vida, mais compatíveis com a perda ou com a eventual incapacitação”.
É indispensável dizer adeus a um ciclo que se encerra para poder dar lugar a algo novo. É necessário também despedir-se de quem já se foi. Cada um à sua maneira e ao seu tempo deverá vivenciar e construir saberes sobre suas perdas. Só assim para que a vida possa continuar seu fluxo.
Sobre um dos lutos, o luto amoroso, que é tão penoso quanto a morte real da pessoa amada, Roland Barthes em seu livro: “Fragmentos do discurso amoroso” nos traz uma importante contribuição: “Por todo o tempo que durar esse estranho luto, deverei carregar o peso de duas infelicidades contrárias entre si: sofrer porque o outro está presente (e continua, a contragosto, a me fazer mal) e afligir-me pelo fato de ele estar morto (aquele que eu amava)”. 
Como podemos ver, os lutos são inevitáveis em nossas vidas. Em algum momento, nos depararemos com eles, e se não permitirmos vivenciá-los, estaremos presos a sombras e fantasmas que não nos deixarão seguir em frente. Já dizia a escritora Virgínia Woolf: “É muito mais difícil matar um fantasma do que matar uma realidade”.
Viver é lidar com perdas. Negá-las é também uma forma de negar a vida.
No filme “As aventuras de Pi” há um trecho que contribui muito em minha discussão, finalizando o texto de hoje:
 “Eu suponho, que no final, a vida é um ato de desapego. Mas o que dói mais, é não tirar um tempo para se despedir.”
Simony Thomazini

domingo, 23 de junho de 2019

A fantasia nossa de cada dia



Durante a vida, às vezes, ocorre da gente fugir daquilo que mais desejamos. Sim, é um paradoxo! Como fugir daquilo que se deseja? Porém, isso é mais comum do que se possa imaginar. E é muito provável que já tenha acontecido contigo. Vou explicar.
Supondo que você deseje muito alguma coisa: um emprego, uma namorada (o), mudar de cidade, uma viagem, enfim, qualquer coisa que mobilize em você a sair de sua “zona de conforto”.
A partir desse desejo criamos em nossa fantasia aquilo que supostamente poderia “dar certo”, imaginamos como seria, inventamos mil maneiras de tudo ocorrer bem conforme o planejado.
Porém, idealizar algo é diferente de realizar.
Colocar isso em prática exigiria muito trabalho e consequências das quais não seria bom “pagar pra ver”. E é aí que grande parte das pessoas fica apenas na segurança da fantasia.
Lá, nada pode dar errado. Enquanto se imagina, há conforto. E com isso o pensar se sobrepõe ao agir. Algo muito comum de acontecer com a maioria das pessoas. 
A partir do momento em que se pensa numa possibilidade de colocar aquela fantasia em ação, ocorrem os pensamentos: “E se não der certo?” “E se acontecer isso ou aquilo?” “ E se...” E a fantasia volta novamente a se tornar mais atraente. Porque nela, nada pode dar errado, não há nenhuma dificuldade, nenhuma frustração, nenhum estresse, é tudo muito lindo!
Muito mais fácil e rápido sustentar esse lugar sem custo algum. Mas, ficar só na idealização, como já devemos saber, nos traz angústias, medos das quais ficam cada vez mais difícil de sair.
Com isso, culpabilizamos sempre um outro, e acabamos postergando o que desejamos. Colocamos a culpa no chefe, nos pais, no filho (a), no marido, na esposa, no cachorro, no gato, no “destino”, e seguimos resignados buscando alguém ou algo para culpar a nossa frustração em não realizar nossos desejos.
Porém, quem além de mim é responsável por aquilo que desejo?
É muito mais conveniente culpar o “destino” pelo caos em nossa vida. Mas, é como naquela frase: “Como culpar o vento pela desordem feita se foi eu quem deixou a janela aberta?”
A psicanálise nos mostra que somos os únicos responsáveis por nossas escolhas. E somente nós somos capazes de nos tornar protagonistas de nossa própria vida. É uma questão de escolha. Ou, eu sigo fantasiando livre de frustrações, estresses, dificuldades, ou, eu me arrisco e lido com as consequências.
É perder ou ganhar. E quando se escolhe algo, inevitavelmente haverá perdas. Os ganhos vêm por acréscimo, isto é, num depois. 
O problema é que passamos muito tempo fazendo de tudo para não perder nada, quando na verdade, o paradoxo da vida reside justamente nisso: quanto mais se pensa que não irá perder, mais se perde. E o preço disso é muitas vezes, pago com a própria vida!
Simony Thomazini

terça-feira, 18 de junho de 2019

O tempo passa ou você passa pelo tempo?

A Persistência da memória" - Salvador Dali (1931)
Cada pessoa possui o seu próprio tempo. Cada um da forma que dá conta, apresenta uma medida de tempo, que não é cronológico, mas lógico, como já apontou o psicanalista Lacan.
É por isso que numa análise, o analista não pode levar o paciente a caminhar por determinadas questões se ele ainda não possui recursos psíquicos para isso.
Sobre esse ponto, ou seja, aqueles que se antecipam em tocar feridas psíquicas, e dar seus “diagnósticos” e ou notícias, antecipando dores e sofrimento fora do “timing” do paciente, Freud, na quinta lição de psicanálise nos adverte: “Não devemos, com efeito, tocar em pontos doentes quando estamos certos de que com isso só provocamos dor e nada mais”.
Há tempo para falar e tempo para calar numa sessão de análise. E o silêncio, por vezes, é tão importante quanto a fala. Quando o paciente se silencia, é certo que ele está elaborando da maneira que pode o que está ouvindo do que ele próprio está dizendo. O que se diz em seguida a esse silêncio, por vezes pode ser liberta-dor.
Nesse sentido, está também incluído nesse tempo, o lugar a qual o sujeito encontra-se situado, bem como a maneira como se posiciona na vida. 
Há aqueles que vivem adiando o tempo. Há outros, que possuem uma voracidade contida na frase “tudo ao mesmo tempo agora”. E há aqueles ainda que devido ao transbordamento de suas dores e sofrimentos, encontram-se petrificados, como se o tempo não mais o atravessassem. 
É por isso que o tempo é tão importante numa psicoterapia ou numa análise (termo utilizado por psicanalistas). Não há receita de bolo para a complexidade humana. 
Cada caso é único! E não há tempo definido para as dores da alma. Podem levar meses, mas para outros, podem levar anos. E por vezes, para alguns casos, podem levar a vida inteira.
Cada um à sua maneira busca um ideal de felicidade, mas a vida nos avisa, de uma forma ou de outra, que não existe! O que podemos fazer são reinvenções que partem sempre do próprio sujeito em encontrar meios específicos para poder ser salvo, como bem nos lembra Freud:
“(...) Não existe uma regra de ouro que se aplique a todos: todo homem tem que descobrir por si mesmo de que modo específico pode ser salvo.” 
É preciso tempo! E que cada um do jeito que pode ou dá conta, aposte nisso respeitando-o, e abrindo espaços para a vida florir à sua maneira. 
Simony Thomazini

Encerro este texto lembrando um trecho da música de Caetano Veloso quando canta “Oração ao tempo”:

“Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos 
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo

“Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo tempo tempo tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo tempo tempo tempo.”

domingo, 16 de junho de 2019

É proibido sentir ódio?


 Provavelmente você já sentiu muito ódio de alguém.  Mas, e se eu te disser que essa pessoa por quem você já odiou ou ainda odeia, não é necessariamente má?  

Não importa o quão ela supostamente fez algo que você considera errado, esse ódio é problema seu.  Sim, essa doeu!
Charles Bukowski, escritor e poeta, disse certa vez: “Qualquer problema que você tiver comigo, é seu.” Essa frase nos dá a ideia de que somos os únicos responsáveis por nossas ações. Não importa o que o outro tenha nos feito, sou eu a única pessoa responsável por meus sentimentos.
Somos autorizados a sentir ódio, claro! Não é proibido sentir ódio. Mas desautorizados em qualquer racionalização em cima dele. E o que isso quer dizer? Tudo o que já foi mencionado acima.
E é isso o que nos propõe a psicanálise. Passamos muito tempo construindo discursos tentando provar o quanto aquela determinada pessoa foi maldosa conosco. Mas, esse discurso não diz a verdade sobre quem você está dizendo, e sim, sobre quem é você.
O que eu digo do outro diz mais sobre mim do que do outro.
Estou me referindo aqui, a situações corriqueiras de nosso dia-a-dia. As pessoas que convivemos, e em algum momento sentimos ódio.
De acordo com Freud, a realidade é psíquica, isto é, vemos as coisas como somos, e não como elas são. Cada um constrói a sua fantasia em torno da realidade. É por isso que ninguém vivencia exatamente a mesma experiência. Teremos sempre milhares de versões em cima de um determinado contexto.
Nesse sentido, o ódio sempre se remete a mim mesmo. O que aquela pessoa tem que eu odeio tanto? Por que ela me irrita? Por que ela desperta em mim sentimentos agressivos? Às vezes negamos em nós mesmos o que o outro nos escancara. Aquilo que eu quero destruir em mim, projeto no outro. É daí que muitas vezes surge o ódio. 
O escritor Jorge Luís Borges possui uma frase em que diz: “A verdade é que ninguém pode nos ferir, a não ser as pessoas que amamos.” É muito dispêndio de energia destinado a alguém que não possui importância em nossa vida. O que ela poderia revelar sobre nós mesmos?
O ódio é um sentimento natural e necessário. Ele precisa comparecer inclusive, numa sessão de análise. O ódio também é o outro lado do amor, o oposto dele, é a indiferença.
Quem nunca odiou o parceiro (a), a mãe, o pai, o irmão, o amigo? Sentimos ódio sim! O problema é quando ele ocupa um lugar grande demais em nossa vida nos impedindo de conviver socialmente.
Nessa perspectiva, quando o ódio comparece nas sessões (e ele precisa aparecer em algum momento) libera-se esse sujeito das amarras que o prende ao objeto a quem se destina esse sentimento.
Por isso que a autoajuda ou os discursos motivacionais não conseguem fazer com o que o sujeito se livre disso, porque prega justamente o contrário, tentando escondê-lo, ou adiá-lo, impedindo que o sujeito possa reconhecer aquilo que é seu.
Por fim, digo a vocês uma notícia que talvez possa causar ódio, ou não:
 O inferno não são os outros.
Simony Thomazini

sexta-feira, 7 de junho de 2019

“Melhor morrer de vodka do que de tédio”



Imagem retirada do site: Unsplash



Certo dia deparei-me com esta frase de Vladimir Maiakósvski, um poeta russo, e pensei: “Essa frase daria um ótimo tema para minha coluna”, e eis que é sobre ela nossa discussão de hoje. 

O trecho me remeteu a inúmeras reflexões que descrever a seguir. 

 A primeira delas é que associar morte e ingestão de álcool nos transmite uma mensagem de nossa luta diária contra o sofrimento. Para não sofrer de tédio a vodka seria uma saída, uma vez em que todos morrem um dia, por que não morrer com aquilo que dá prazer?

A segunda reflexão é fundamentada em Freud (1930) e sua obra “Mal-estar na cultura” quando diz que cada um de nós busca a felicidade de uma determinada maneira. O grande problema é que a felicidade, de acordo com ele, possui duas metas: uma positiva e outra negativa.

Por um lado teríamos a ausência do sofrimento e de desprazer, e, por outro, a busca por experiências intensas de prazer. Sendo assim, o homem busca realizar um ou outro desses objetivos.

Isso significa dizer que - voltando a frase do poeta russo - ou a gente acaba com o tédio ou nos entregamos a vodka. Só não é possível seguir pelos dois caminhos ao mesmo tempo.

A terceira reflexão é o que me fez pensar a respeito do lugar que o prazer tem ocupado em nossa sociedade. Alguns lemas conhecidos como: “Viva cada dia como se fosse o último” “é melhor se arrepender do que fez do que não fez” nos dá a ideia de uma vida rasa e superficial.

E digo isso porque agindo dessa forma estamos simplificando a nossa vida em mera satisfação dos impulsos. E a vida é muito maior do que isso. Não é?

Questões como essa nos remetem a forma como nossos avós viviam. Se antes eles eram constantemente reprimidos por não poderem satisfazer seus impulsos, hoje sofremos com essas exigências que nos atravessam quase como obrigações.

Se você não agir, é um covarde!  Está descontente no trabalho? Demita-se!
Quer se divertir? Beba!

E seguimos doentes e cansados, e ainda assim, apesar de toda essa “intensidade”, insatisfeitos.

 Isso nos faz pensar que impulso é sinônimo de superficialidade. Ora, para agir não é preciso pensar, e está aí um dos grandes problemas vivenciados pelas pessoas hoje. O que me leva a quarta reflexão.

Hoje, os inúmeros discursos motivacionais de muitos líderes, palestrantes e até mesmo figuras religiosas, dão enorme ênfase ao agir no lugar do pensar.

São sempre no imperativo os seus discursos. “Faça!”, “Seja!”, “Tenha mais atitude!”. Ou é um discurso ainda mais raso pautado na ideia de que “tudo vai dar certo” “é só ter fé”. A ação sem pensamento é tão vazia e superficial quanto o tal do “pensamento positivo”.

Deixando claro que não faço menção a qualquer religião, e tudo bem se você tem fé, o problema é quando você acha que isso basta. E aprendemos muito durante a vida. Não basta ter fé ou pensamento positivo!

Freud também tem uma frase em que diz: “O pensamento é o ensaio da ação”. Porém, é justamente o oposto o que mais vemos hoje. É só depois de agir, que se pensa nas consequências. Assim, a ação passa a ser o ensaio do pensamento.

Nesse sentido, podemos dizer metaforicamente que, agir impulsivamente é vodka, e pensar é tédio.

Essa associação faz alusão ao que temos vivido hoje. É preciso correr constantemente e agir incessantemente para podermos nos enquadrar aos ideais impostos. Como consequência disso, tornamos reféns de atuações que no fim, podem nos levar a um colapso.

Com isso, morremos de vodka porque não suportamos o tédio, a falta e o vazio, mas aplaudimos os excessos e a superficialidade.

E pra encerrar essa série de reflexões, morremos de vodka quando tentamos resolver tudo de forma rápida e indolor, porque não podemos ser vistos pelas pessoas como “fracos” ou “tristes”.

A consequência disso são pessoas superficiais e otimistas demais acreditando que nenhum mal pode lhe acontecer.

No final, nem sempre pode dar tudo certo, como pregam os discursos motivacionais. E negar o nosso lado humano, isto é, como seres que sofrem, negamos que sim, podemos morrer de vodka.





terça-feira, 4 de junho de 2019

E O PAI? A função paterna na sociedade contemporânea




Michael Ancher
Pintor dinamarquês (1849-1927)

Nos dias atuais nos deparamos com novas mudanças ocorridas em nossa sociedade no âmbito familiar. Sobre essa família atual, Lacan (1987) nos diz que há um declínio da imagem social do pai, isto é, para a psicanálise, ocorre atualmente uma fragilização da função paterna.

O que é a função paterna?
Segundo a psicanálise, entende-se por função paterna o processo em que o pai, ou qualquer outro que possa assumir este papel, é o detentor da Lei e interdita a mãe em sua relação com o filho, ou seja, a mãe precisa descolar-se da criança e desejar outras coisas para além dela. Em outras palavras: é necessário que ocorra um terceiro na relação mãe e bebê e o amor da mãe não fique só voltado à criança. Se tudo ocorrer bem nesse processo, teremos a efetivação da função paterna.
Diante disto, os sintomas contemporâneos são reflexos das formas de famílias que possuem a fragilidade da figura paterna. 
De acordo com Calligaris (1993) existe algo a se indagar perante a função paterna e porque se fala tanto nesse declínio. O autor nos diz que não significa que falte um pai, mas ele aponta para um pedido enfático: que haja mais pai! 
Vamos entender melhor o porquê disso.
Na sociedade pós-moderna em que vivemos nos deparamos com situações cada vez mais comuns em que os filhos ainda pequenos escolhem qual roupa irão vestir, qual canal de TV irão assistir, ou o que irão comer no almoço ou no jantar. Nessas situações que constituem para os pais muitas vezes, uma maneira de “agrado” para os seus filhos, eles estariam negando a responsabilidade que lhes cabe.
Há uma evasão da função paterna?
Sendo assim, o que vemos hoje são decorrências devastadoras do declínio da autoridade estendidas também para a educação, por exemplo. Há sistemas educacionais em que o aluno deve aprender sozinho, nos quais a figura do professor se resume a um mero facilitador. O que se esconde por trás dessa proposta é o fato de que os adultos negam a responsabilidade que seria deles. 
Não é possível que uma criança internalize conteúdos e aprenda, sem antes obter a mediação do professor para tal ato.
Com isso, nega-se também a criança aquilo que é necessário a sua constituição, e se houver falhas nesta função do pai, teremos os infindáveis sintomas contemporâneos que vemos hoje. É necessário que haja primeiro a figura do Outro e esta seja presente, para que só depois o sujeito possa caminhar sozinho. 
É preciso que haja a função do pai! Estes exemplos demonstram que na pós-modernidade as figuras que assumem este papel estão cada vez mais questionáveis. 
Qual sociedade temos hoje? 
A nossa sociedade está vivendo o prazer ilimitado, e, portanto, sem regras muitas vezes. Hoje existe muito um ideal pautado na ideia de que o sujeito pode conseguir tudo independente da situação e do preço que venha a pagar por isso. Há também as inúmeras propagandas que induzem a comprar cada vez mais para se obter uma felicidade interminável, uma vez em que a tendência de nossa sociedade atual é a aniquilação do sofrimento. 
“Seja feliz! Seja positivo! Se esforce e conseguirá o que quiser!” Estes são alguns exemplos dos imperativos categóricos que vemos e ouvimos hoje!
O que importa em nossa sociedade contemporânea é que nada é impossível, isto é, para se atingir o ideal de felicidade e sentir-se completo, é preciso ter isso e aquilo. É isso que dificulta a função do limite, do corte no sujeito, impedindo o trabalho de luto que é inevitável em nossa jornada. E esse limite é concedido através da função do pai.
Estamos vivendo numa sociedade que não sabe perder, e não sabendo atravessar por estes momentos em que inevitavelmente nos deparamos em algum momento da vida, haverá os efeitos dessa defasagem com aquilo que a psicanálise chama de fenômenos de borda comuns do nosso tempo. 
Temos como exemplo, a toxicomania, algumas anorexias e bulimias, que são tentativas do sujeito de sair da inibição, demonstrando as falhas na incapacidade em elaborar os lutos. 
A Lei do pai
Tudo isso que estou dizendo a vocês é para levar a compreensão de que é preciso primeiramente a inscrição da função paterna na vida do sujeito, para em seguida serem internalizadas e respeitadas as leis sociais importantes ao convívio em nossa sociedade.
É preciso haver espaço para a lei do pai, e a mãe também precisa permitir que este efeito seja transmitido ao filho. Se ela se fizer onipotente e detentora de todo o saber sobre a criança, não existirá a inscrição dessa Lei primordial, e posteriormente, não haverá as leis sociais ao longo da vida desse sujeito.  
Seguindo esta reflexão, caberá aos pais assumir a responsabilidade que lhes é própria, isto é, transmissores da Lei ao filho. Assim, a criança internalizará o seu lugar diante daquilo que lhe foi apresentado, podendo torna-se adultos que irão submeter-se as leis sociais, uma vez em que nela foi inscrita a primeira Lei, ou seja, a Lei do pai.