A melancolia sempre foi um tema que muito me instigou a pesquisá-lo. Nesta primeira parte, procurei situar a melancolia com a sua problemática narcísica, a partir de Freud. Numa segunda parte, que farei posteriormente a essa publicação, mostrarei a melancolia segundo Lacan, uma vez que o mesmo e Freud possuem algumas diferenças sobre o tema, como por exemplo, Lacan não considera a mania como reverso da melancolia. Porém, isso será debatido num outro momento.
Freud em seu texto “Luto e Melancolia” acreditava que a natureza da **melancolia poderia ser explicada através de uma aproximação com o luto e consequentemente, com a sua perda, e não de um trabalho de luto.
Ainda segundo Freud, o conceito de narcisismo
é explicado por um investimento libidinal objetal que irá retornar ao eu e a
identificação. Assim, há uma recusa psíquica da realidade da perda do
objeto. No caso do melancólico, isso não
quer dizer que o outro não exista, mas podemos dizer que esse outro é reduzido
a uma projeção imagética do eu, e, portanto, elevado a um eu ideal narcísico.
A unidade corporal de um melancólico
é mal constituída, falha, e a sua identificação com o outro – aqui pontuado
como no singular - se torna a sua única possibilidade de encontro com uma
imagem que pode fazer dele mesmo, e com isso, unificá-lo nos contornos de um
corpo. Também podemos partir da hipótese de que, talvez aqui, resida a sua
dificuldade do eu em aceitar deixar o objeto.
Esse objeto assume a forma da imagem do
próprio eu, o eu ideal, o absoluto de um ser amado, e, se perdido, resulta num
sofrimento intolerável ao eu, pois, perder este objeto absoluto é perder a si
mesmo, uma vez que a partir da identificação, a qual me referi logo acima
(retorno do investimento do objeto para o eu) ele se torna o próprio eu. É
aqui que procuro situar a melancolia e a sua problemática narcísica.
Freud procurou explicar a melancolia no mesmo
campo do luto separando-os dos que tem em comum. Isso se deve ao fato de que as causas externas
que influenciam tanto um quanto o outro parecem ser as mesmas, isto é, a perda
do objeto. Todavia, o que intriga Freud
é que em algumas pessoas esta perda produz o luto, não considerado patológico,
e em outras, a melancolia.
Nesse sentido, Freud delimita os traços da
melancolia: "um desânimo
profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo externo, a perda da
capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer atividade e uma diminuição
dos sentimentos de auto-estima" (FREUD, 1917, p. 250). Esses mesmos traços
também são encontrados no luto, porém, com uma exceção: a diminuição da
autoestima.
Há
também outra questão em relação ao objeto do luto, pois, se no mesmo ele é
abandonado e, mais tarde, substituído por outro, isso prova que ele é não-todo
e portador de falhas, o que é contrário ao objeto da melancolia, que se
apresenta completo e absoluto. Por essa razão é que há o investimento do eu em
outro objeto e elaboração simbólica das perdas podem ser evidenciadas no
trabalho de luto e não na melancolia.
Freud enfatiza que no trabalho de
luto é mais fácil identificar o motivo que leva ao sofrimento, já que o objeto
que se perdeu e está absorvendo o ego é visivelmente percebido, pois, ele
morreu, foi perdido e assim, a realidade lhe dá provas de sua ausência. Já na
melancolia não se sabe o que foi realmente perdido. Assim, Freud propõe que a
natureza da perda seja mais ideal, ou perda do amor do objeto. O melancólico
pode até saber que objeto foi perdido, mas não sabe o que se perdeu nesse
objeto. É aí que o sujeito começa a se autodepreciar-se, autopunir-se e
autocriticar-se de maneira exagerada. Um paciente melancólico segundo Freud,
descreve-se como sendo o pior ser humano possível, porém, sem possuir sentimentos de
vergonha.
Este
paciente através de suas autotorturas faz com que Freud pontue que estão
dirigidas a um outro que o paciente amou ou está amando, ou seja, é um outro
que o paciente agride e não a ele mesmo. Um outro que habita no eu por
intermédio da identificação e incorporação, mas sem que sua existência seja
identificada por ele. As torturas dirigidas a um outro só são possíveis porque
não estão diretamente relacionadas a ele, mas sim contra um outro/objeto que
não se sabe estar presente nele.
É
por isso também que os melancólicos não se envergonham, pois estão referindo-se
no fundo, a outra pessoa.
O
investimento que antes era dirigido para o objeto se volta para o eu, ocorrendo
uma identificação do eu com o objeto. O objeto incorporado se torna
extremamente excessivo e investido a ponto do eu não se reconhecer mais,
perdendo-se e tornando-se o próprio objeto. Diante dessa dor do eu, resta
apenas a busca desesperada de preservação para poder manter o objeto perdido
presente, ainda que para isso tenha que negar a realidade de sua ausência. Ao
criar essa ilusão para manter o objeto presente através da incorporação, o eu
evita uma dor maior ocasionada pela sua ausência. Mas, a realidade dá provas
que o objeto não está, mesmo diante das defesas. E toda a questão da
ambivalência entre amor e ódio tida com o objeto, antes mesmo de ser perdido é
reativada e posta novamente em funcionamento dentro do eu. É essa ambivalência,
não encontrada no luto, que é a responsável pela luta entre o eu e o objeto.
Temos então um impasse, pois, na melancolia,
torturar o objeto também significa torturar o próprio eu, uma vez que o objeto
se encontra dentro do próprio eu. No ato de agressão, sendo esta ativa, pois é
o eu quem se autoagride, e, portanto sádica ao objeto, o eu se satisfaz de seu
ódio contra ele, mas por outro lado, também sofre, uma vez que recebe parte
desse ataque. Assim, sofrer e se punir pelos ataques equivale dizer ao mesmo
que colocar em evidência o amor que o eu ainda nutre pelo objeto. Ao analisar
essa autotortura manifestada pelo melancólico, Freud reconhece que ela também é
destinada ao outro com o propósito de vingança pelo abandono sofrido. Com isso Freud assinala que na melancolia, juntamente as ambivalências de amor e ódio, sadismo
e masoquismo, existe a presença de um caráter narcisista de escolha objetal.
De acordo com Hassoun (2002), quando o melancólico
elege investir em um objeto, tem como objetivo, a tentativa de uma sustentação
de uma imagem de si mesmo que foi falha nas primeiras identificações com o
outro materno e paterno que lhe foram ausentes. Dito de outra maneira, o
melancólico busca no outro algo que lhe falta, uma consistência de um traço
psíquico que o identifique, já que não foi possibilitado a ele pelas figuras de
identificação primária. Nesse sentido, a identificação na melancolia se dá pela
totalidade do objeto e não por alguns de seus traços. Isso torna possível dizer
que a fusão do eu com a imagem, ou seja, o investimento pulsional do objeto é
uma tentativa de ainda manter a ilusão de uma possível completude narcísica, de
uma não ruptura ou uma destruição do objeto amado.
Situamos aqui o lugar do narcisismo na
melancolia, pois, uma vez fundido eu e objeto, perder esse objeto significa
também perder a si mesmo nesse objeto. O eu resiste a perda, porque ele mesmo
se tornou o objeto pela força da identificação.
Assim podemos dizer que, se a escolha do melancólico é de acordo com um
molde narcisista, ele o incorpora não por receio em perdê-lo, mas por não querer se perder nesse mesmo objeto. Na melancolia, portanto, podemos encontrar a marca do narcisismo devido ao fato de deixar o objeto perdido, uma vez que esse objeto está misturado a ele.
**É importante salientar que a proximidade da
melancolia com a depressão no campo da psiquiatria, trouxe a tona uma discussão
por parte dos psicanalistas trazendo a melancolia como centro. Não quero dizer
que a melancolia é considerada na psicanálise o mesmo que a depressão
psiquiátrica, mas é possível dizer que existe uma interlocução entre as duas,
embora limitada, por apresentarem aproximação teórica relacionada à
justificativa narcísica e algumas produções sintomáticas, como por exemplo, o
empobrecimento do eu.
Referências: Sobre o Narcisismo uma
introdução, Sigmund Freud, 1914; Luto e Melancolia, Sigmund Freud, 1917; A crueldade melancólica, Paul Laurent Hassoun, 2002; Melancolia e narcisismo: a
face narcísica da melancolia nas relações do eu com o outro, Carlos José da
Silva Santa Clara, 2007.
Imagem: Edvard Munch - Melancolia, 1894.
