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| Imagem: Unsplash |
“Reza a lenda que a gente nasceu para ser feliz”, diz um trecho da música ‘Nada fácil’ do Engenheiros do Hawaii. Pode parecer óbvio perguntar se as pessoas querem ser felizes, não? No entanto, a felicidade não parece ser algo fácil e simples como se pensa. E é sobre isso que irei discutir na coluna de hoje.
Em geral, colocamos a culpa de nossa insatisfação com a vida em fatores exteriores, por exemplo: “se eu tivesse dinheiro suficiente
seria feliz”, “não sou feliz porque não tenho tal emprego, não tenho amor, não
tenho x coisas que poderiam me trazer felicidade”, etc.
Mas, a questão que eu faço a vocês é:
O que
acontece quando a gente consegue o que quer?
Sobre isso, Clarice Lispector no livro: “Perto do Coração
Selvagem” também nos faz refletir quando escreve: “Queria saber: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois?”
Nesse sentido, pode-se dizer que ser feliz
não diz tanto ao que se quer, mas a suportar ser feliz.
Afirmar isso pode soar forte, presunçoso,
uma vez em que raramente as pessoas acreditam ter dificuldades de suportar ou
tolerar a alegria, o bem-estar, a satisfação. Porém, o que vemos na clínica
psicanalítica demonstra que isso acontece sim, infelizmente. E explico o porquê.
Cada pessoa possui uma quantidade aceitável
de satisfação ou felicidade em sua vida. Em geral, essa quantidade é mínima.
Isso significa que, mesmo sem saber, busca-se muito mais o sofrimento do que o
bem-estar. Pode-se até dizer de pessoas que rejeitam isso quando atinge certo
limite.
Goethe, escritor alemão disse certa vez:
“nada é mais difícil de suportar do que a sucessão de dias belos.”
Para muitas pessoas, a felicidade, ou a
satisfação é evitada quando se atingem os objetivos. Trata-se da conhecida
e famosa “autossabotagem”, isto é, o esforço inconsciente para impedir que se
chegue ao seus desejos.
O
sujeito pode até conseguir pequenas coisas, mas quando está prestes a realizar
algo importante, fracassa. E isso acontece repetidamente ao longo de sua vida.
Para outros, apesar de não haver esses
comportamentos na realização de suas ações, falha na capacidade em usufruir
daquilo que consegue. Ou seja, embora a pessoa obtenha sucesso profissional,
amor, amizade, etc, pouco disso vem a ser usufruído.
Com isso, o sujeito foca seus esforços em
obter cada vez mais, e esquece-se de cultivar aquilo que já possui. E aí, a
insatisfação e as queixas estão instaladas vivendo em constante luta e
sofrimento consigo mesmo e com os outros.
Em contrapartida, há aqueles que possuem
poucos atributos (sucesso profissional, amor, amizades, etc) mas, conseguem
cultivar suas conquistas obtendo uma vida satisfatória e feliz.
Questões
como essas foram analisadas por Freud. Foi verificado por ele um sentimento
intenso de culpa inconsciente na maioria das pessoas, que por razões diversas,
são incapazes de aceitar a felicidade, pois acreditam não serem merecedoras
deste sentimento.
Essa culpa
excessiva, segundo ele, é o que demonstra como algumas pessoas possuem enormes
dificuldades em melhorar, por mais que queiram conscientemente, mudar sua
maneira de ser.
É desse sentimento de culpa que surge a
“autossabotagem” na realização de desejos ou na impossibilidade de poder
usufruir de suas conquistas. Na maioria dos casos, a pessoa não percebe essa
culpa, uma vez que ela é inconsciente, ou ainda, quando se dá conta, não sabe
as razões que os levam a fazer o que fazem.
Esses sentimentos contraditórios
normalmente já fazem parte da história do sujeito há muito tempo e ficaram
alojados em suas memórias, geralmente desde a infância.
Em um processo analítico, essa culpa é
primeiramente percebida, e, aos poucos, é trabalhada até que gradualmente se
desfaça. Isso faz com que ele não só obtenha o que deseja na vida, mas,
principalmente, que consiga usufruir desses feitos.
Em outras palavras, dizemos que o sujeito
passa a tolerar o aumento da quantidade de felicidade e satisfação em sua vida.
Encerro deixando uma provocação e reflexão a respeito do que foi discutido:
Quanta
felicidade você consegue suportar?

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