Esta crônica foi escrita devido a acontecimentos atípicos, e é diferente de tudo o que eu já escrevi. Primeiro sonhei com a primeira experiência de satisfação (posso fazer uma outra publicação explicando o que seria, para aqueles que desconhecem). Neste dia do sonho, acordei com dor de garganta. Na noite seguinte tive insônia (o que é muito raro, porque não costumo ter insônias) e escrevi esta crônica mentalmente. Ela não está fiel ao meu devaneio noturno, mas acredito que grande parte dela sim. Precisava ser escrita. Precisava ecoar além dos muros da minha imaginação. Então, aí está.
Devas(t)ação
Alice
chorava desconsoladamente no berço. Na sala estava a sua mãe com uma amiga. Ao
ouvir os gritos assombrosos de Alice que perturbavam a amiga, esta pergunta a
mãe se não iria até lá para acalmá-la. Ela diz serenamente que não, que havia a
amamentado há pouco tempo e aquele choro era provavelmente de birra. “Ela vai
parar de chorar”, diz. A amiga de Alice ficara perplexa com que acabara de ouvir e
desconheceu aquela atitude da amiga. A
criança não só chorava, como dava gritos ensurdecedores na busca da mãe. Não
conseguiu manter a calma, e ficar indiferente aos gritos da criança. Então, disse: “Sua filha
precisa de você, por favor, vá até lá!”. A mãe olhou-a fixamente em seus olhos
e sorrindo maliciosamente disse: “Você não tem filhos, ela é a minha segunda
filha, não vou errar com ela como errei com a primeira, ela vai parar de
chorar!”. Esta última frase disse em tom de ameaça e de um aparente ódio que exalava de seus olhos. Após
dizer isso caminhou para a cozinha dizendo que faria um café para as duas.
Enquanto ela foi à cozinha, a amiga dirigiu-se até o quarto. A criança agora, estava em
soluços e chupando o dedo freneticamente e ininterruptamente. Pegou-a nos braços e disse: “Pobre
bebê, pobre bebê. Sua mãe não está bem, parece não ouvir você, ou se nega a
ouví-la, não sei, mas vai ficar tudo bem, vai ficar tudo bem, acalme-se”. Mal terminara
de dizer essas palavras, quando a mãe entra no quarto enfurecida como se tomada por um
leve surto, e grita: “Me dá aqui a minha filha. Você não vai permitir que eu
erre com ela, eu não quero errar, eu não vou errar... E cai ao chão chorando
efusivamente e incontrolavelmente. A amiga deixa o bebê, agora mais calmo ao
berço, e vai até ela. “O que está acontecendo contigo?”.
Ela, em prantos, olha-a de soslaio e as palavras parecem vir como vômitos, sinal de quem a mantinha presas há muito tempo. “Ele foi embora , eu
olho pra ela e lembro dele. E eu não quero me lembrar dele. Ela não pára de
chorar, eu não sei o que fazer para ela parar de chorar”. Ao dizer isso, a criança começa repentinamente
a chorar novamente, dessa vez, em um
grito ainda mais ensurdecedor. A mãe parece não ouvir e diz em meio aos gritos
da filha que não sabe o que fazer com ela, que não a quer, pois sua presença a
lembra da ausência do pai. A criança pára bruscamente de chorar. A amiga fica
confusa nesse vai-e-vem de mãe e filha. Tudo acontece muito rápido, não dá
tempo de racionalizar, mãe e filha se fundem ali na sua frente em meio a gritos, gemidos, lágrimas e agora, um silêncio sombrio que as atravessa cortando a garganta de ambas, mãe e filha, emudecem. A amiga, tomada pelo silêncio das
duas, desloca-se do chão aonde estava e caminha para o berço. A criança com os
olhos marejados, possui o olhar perdido, não faz mais contato visual com ela.
Além de manter os olhos perdidos, parece estar em um estado catatônico, pois
não movimenta nem pés e mãos como fazia quando estava chorando. Ela treme
diante dessa situação. Não sabe o que fazer. A mãe continua no chão. A criança
no berço parece buscar algo. O silêncio parece durar uma eternidade entre mãe e
filha que há pouco combatiam. A mãe levanta-se calmamente como se recuperada de
seu surto e diz a amiga: “Eu não disse, ela iria parar de chorar”.
Alice nunca mais chorou depois desse dia.
Alice também nunca mais sorriu. Aprendeu a engolir todas as lágrimas sem berros. Dizem
que continua assim até hoje.
** "A devastação" é um conceito usado por Lacan, já Freud se utiliza do termo "a catástrofe". Nas palavras de Malvine Zalcberg no livro: "A relação mãe e filha", sobre a devastação entre mãe e filha, ela diz:
"Se o outro não a vê, a criança não vê nada; simplesmente porque não há nada para ver, já que como objeto, ela não tem existência. É preciso que o olhar ou o sorriso de sua mãe digam, de alguma maneira, à criança: ei-la".
"Este processo pelo qual o olhar da mãe funciona em nível de objeto que leve à construção de um imagem é particularmente importante para a menina; ela mais que um menino, depende de uma cobertura imaginária para um corpo para o que falta um significante feminino".
Imagem: "Quarto de Hotel" - Edward Hopper (conhecido como o 'pintor da solidão'), 1931.

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