Segundo a medicina, o significado mais aceito
da dor é de acordo com a Sociedade Internacional da Dor (IASP, 2011): “uma
experiência sensitiva e emocional desagradável, associada a uma lesão ou
descrita como a ela relacionada”.
Existe, porém, uma diferenciação em relação
ao caráter alarmante da dor aguda que segundo Márquez (2007): “as dores
crônicas podem ser entendidas como as que se mantém após a cura da lesão
inicial, ou que persistem além de semanas ou meses”.
Para a psicanálise, isto é, pelo viés da
linguagem, a dor é entendida como um dos nomes da angústia, e a angústia, de
acordo com Lacan, é o afeto que não engana.
Essa dor é a expressão de um limiar, ou seja, o ultrapassamento de limite do que seria “permitido” ao psiquismo. Nesse sentido, consiste em grandes cargas de energia, vista como um excesso.
A dor, nessa
perspectiva, é oposta ao desprazer, pois as quantidades excessivas acabam
invadindo os dispositivos psíquicos de proteção criando a ideia do “cheio
demais cria o vazio”, expressão utilizada por Pontalis (2005).
Assim, a dor é efeito de uma implosão. Esta dor
da qual estamos falando, sem etiologia orgânica, é entendida para a psicanálise
como um fenômeno, na qual entenderemos melhor a seguir.
O que é dor crônica?
O sujeito acometido por dores crônicas é
aquele que seus relatos são breves, contidos, e concentra seus dizeres de
maneira tão minuciosa a respeito desta dor, levando-nos a pensar como se fosse um grito, um som visceral de seu corpo que sofre, uma via possível para manifestar a intensidade de um sujeito em
colapso.
Esta dor sentida como uma aniquilação, como descreve Nasio (2007) “se traduz então
por uma sensação física de desagregação [...] um desmoronamento mudo do corpo”.
O autor ainda enfatiza que se a dor
crônica revela o silêncio e o mutismo na qual o sujeito está submerso, o grito
seria o primeiro movimento necessário para dar voz ao que ele sente. Assim, por
não ser comunicável, por se consistir num fenômeno só para si, a dor possui
somente essa possibilidade de alternância: o silêncio e o grito.
Esse grito primeiro que o sujeito enuncia, é
entendido por Lacan como um primeiro passo para sair de seu estado de
petrificação. É, portanto, uma tentativa de representação. Porém, até esse
momento em que o grito rompa o silêncio, a dor que petrifica e paralisa impedindo quaisquer tentativa de fuga, deixa-o a deriva. O efeito
disso nos pacientes é como destaca Barreto (1995) “a dor é de uma mudez
desesperada”.
Nesse sentido, pessoas acometidas por essas
dores, não sabem e não podem dizer por que e de onde vem essa dor que nunca
passa. É por isso que o grito cumpre o papel, não somente de uma descarga
necessária, como também uma ponte entre o inconsciente e a consciência para
aquilo que está invadindo o psiquismo em quantidades intoleráveis, podendo ser
capturado e elaborado.
É importante ressaltar que esta dimensão da
dor da qual estamos discutindo, é diferente da esfera do sofrimento. Na
primeira, o sujeito está fechado em si mesmo, sem nenhuma abertura para o
Outro, submerso em um mutismo intolerável como foi descrito acima. Já a
experiência do sofrimento, permite movimentos de demandas e cria o laço social, ou
seja, o sujeito em sofrimento faz apelos para o outro numa tentativa de
apaziguamento e ligação desse transbordamento doloroso.
Como é
o tratamento?
Em uma psicoterapia ou em uma análise (termo
utilizado por psicanalistas), o psicólogo ou o analista, irá oferecer uma
escuta a esse sujeito incluindo a sua dor tanto numa dimensão de sentido como
em seu aspecto fora-de-sentido.
Como já foi dito, é só quando o grito é
expresso numa tentativa de inscrição de intensidade, portanto, como esforço de
estabelecer contornos ao ego, que o sujeito será ouvido e inserido numa
dimensão de significação, abrindo as portas para que possa fazer um apelo ao
Outro – passo primeiro fundamental na condução da dor à representação.
Nesse sentido, a
tarefa de elaboração da dor crônica seria a de tentar fazer a ligação ao que
não foi ligado – e que, por isso, é excessivo – através do trabalho árduo de
ligação e conjunção, isto é, de representação.
Nessa dimensão incessante e insistente por
parte do analista, a dor crônica constitui-se como um grito que o retira de seu
silêncio; um grito que chegará aos ouvidos daqueles que realmente podem e estão
qualificados a ajudá-lo.
Simony Thomazini
Simony Thomazini

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