Publicarei neste blog todos os meus textos escritos ao Jornal Noroeste. É uma forma de poder deixá-los arquivados a quem se interessar pelos temas discutidos.
Como
este é o primeiro texto da coluna, iniciarei escrevendo a respeito daquilo que
nos torna humanos e permite com que possamos conviver com as outras pessoas,
isto é, a palavra.
Guimarães
Rosa, escritor mineiro, disse certa vez que: “A linguagem e a vida é uma coisa
só”. As palavras nos perpassam e precisamos delas tanto quanto necessitamos do
ar para respirarmos.
No entanto, o mau uso das mesmas, e esse “mau uso”
refere-se a algumas pessoas que não possuem recursos psíquicos suficientes para
elaborarem o que lhe acontecem, lidam muito mal com suas próprias vivências,
tornando-se refém de si mesmas, e, portanto, de suas próprias palavras.
Palavras
é o que existe de mais libertador, e também de mais mortífero dizia Françoise Dolto,
psicanalista francesa. É por meio de palavras que cria-se laços, assim como
também é através delas que vínculos se desfazem.
Palavras são capazes de causar
alegria, tristeza, raiva, ódio, amor, dentre outras emoções e sentimentos
semelhantes. Somos seres destinados a falar e construídos desde crianças pela
linguagem. Um recém-nascido não necessita somente que a mãe o alimente com o
leite, mas também precisa ser alimentado com palavras para que a partir dali
possa se constituir.
Assim, podemos perceber ao longo da vida que em muitos
momentos, as palavras, ou ficam ‘atravessadas na garganta’, nos faltam, causam
mal entendidos, ou ainda, fala-se em excesso, mas, sem por isso dizer alguma
coisa.
Sobre esta última menção, há pessoas que usam
as palavras em excesso para ocultar-se, o que pode soar estranho, mas, quando
se fala demasiadamente não se ouve o que se diz, e por não estar atento as
próprias palavras, não há pensamento reflexivo acerca das mesmas, ou seja,
enquanto se fala demais não escutamos o que dizemos, e as palavras tornam-se
objetos de uso para encobrir-nos. Assim, criamos com as palavras em excesso – e
o excesso sempre vem para ocultar alguma falta - a imagem que desejamos passar
ao outro, em alguns casos, repleta com ornamentos e honrarias, ou ainda,
carregadas de vitimismo.
Existem
alguns outros momentos que somos tomados pela angústia, e nos refugiamos no
silêncio e isolamento devido a incapacidade de compreender o que se passa
conosco, com isso, acreditamos na ilusão de que afastar-se de tudo e todos, é a
melhor saída.
Há momentos em que precisamos de silêncio e distância, todavia,
quando este comportamento acontece em situações conflitantes e angustiantes que
precisam ser melhor elaboradas, o isolamento não é libertador, mas propicia um
sofrimento maior.
É exatamente
nesses momentos em que a palavra assume o seu real poder. E sobre isso,
Contardo Calligaris, escritor, psicanalista e
dramaturgo italiano radicado no Brasil diz que: “É melhor falar logo das coisas
mais difíceis de serem ditas. Pois, quando silenciadas, elas acabam se
vingando, sempre”.
E o que este autor quer nos dizer?
Quando nos silenciamos, pois não encontramos as “palavras
certas” para nos expressar, ou porque acreditamos que as outras pessoas não
irão nos entender, ou mesmo nos ouvir, algo disso recai em nosso corpo através
daquilo que chamamos de ‘doenças psicossomáticas’, ou ainda, em comportamentos
que se repetem com frequência causando sofrimento. Isto quer dizer que algo do
que não é dito sempre volta, e retorna com maior força sobre o sujeito,
fazendo-o muitas vezes, pagar um preço muito alto. Sigmund Freud, o pai da
psicanálise, já havia nos alertado que: “Nada na vida é tão caro quando a
doença e a estupidez”.
É nesse sentido que uma psicoterapia, ou uma análise (termo utilizado
por psicanalistas) tornam-se o meio mais eficaz e porque não dizer único? para
que as palavras possam ser ditas, e ouvidas por um profissional qualificado
para tanto, uma vez em que quando não ditas, podem tornar-se doenças, assim
como descreve Jacques Lacan, psicanalista francês. Falar sempre salva, “o que é
calado na primeira geração, a segunda carrega no corpo” e aqui cito novamente
Francoise Dolto para demonstrar mais uma vez a necessária e preciosa função das
palavras.
É digno de nota informar a vocês que não estou me referindo a
falar tudo o que se pensa com aquele discurso pronto utilizado por algumas
pessoas de “não vou levar desaforo pra casa”, e, saem por aí falando de forma
irresponsável e insensata. Não é disso de que se trata aqui, pois falando tudo
o que se pensa, convoca-se o outro a dizer-lhe também o que pensa, e, com isso,
é preciso assumir as consequências de tal feito. O respeito frente às
diferenças é sempre bem-vindo nessas e demais situações.
Por fim, é importante ressaltar que quando falamos, algo
também se perde, isto é, não se pode dizer tudo, assim, ao escolhermos algumas
palavras a serem ditas, perdem-se outras.
É por isso que as palavras usadas são
as que melhor nos vestem. Com isso, as palavras são capazes de contornar
aquelas vivências angustiantes, pois, quando silenciadas, é possível que se use
no lugar destas, atos contra si mesmo ou contra o outro, tornando a convivência
consigo mesmo e com os demais, conflitante, e, a vida vai tornando-se cada vez
mais difícil do que já é.
Simony Thomazini

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