quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Melancolia e Narcisismo


A melancolia sempre foi um tema que muito me instigou a pesquisá-lo. Nesta primeira parte, procurei situar a melancolia com a sua problemática narcísica, a partir de Freud. Numa segunda parte, que farei posteriormente a essa publicação, mostrarei a melancolia segundo Lacan, uma vez que o mesmo e Freud possuem algumas diferenças sobre o tema, como por exemplo, Lacan não considera a mania como reverso da melancolia. Porém, isso será debatido num outro momento.

Freud em seu texto Luto e Melancolia” acreditava que a natureza da **melancolia poderia ser explicada através de uma aproximação com o luto e consequentemente, com a  sua perda, e não de um trabalho de luto.
 Ainda segundo Freud, o conceito de narcisismo é explicado por um investimento libidinal objetal que irá retornar ao eu e a identificação. Assim, há uma recusa psíquica da realidade da perda do objeto.  No caso do melancólico, isso não quer dizer que o outro não exista, mas podemos dizer que esse outro é reduzido a uma projeção imagética do eu, e, portanto, elevado a um eu ideal narcísico.
            A unidade corporal de um melancólico é mal constituída, falha, e a sua identificação com o outro – aqui pontuado como no singular - se torna a sua única possibilidade de encontro com uma imagem que pode fazer dele mesmo, e com isso, unificá-lo nos contornos de um corpo. Também podemos partir da hipótese de que, talvez aqui, resida a sua dificuldade do eu em aceitar deixar o objeto.
Esse objeto assume a forma da imagem do próprio eu, o eu ideal, o absoluto de um ser amado, e, se perdido, resulta num sofrimento intolerável ao eu, pois, perder este objeto absoluto é perder a si mesmo, uma vez que a partir da identificação, a qual me referi logo acima (retorno do investimento do objeto para o eu) ele se torna o próprio eu. É aqui que procuro situar a melancolia e a sua problemática narcísica.
Freud procurou explicar a melancolia no mesmo campo do luto separando-os dos que tem em comum.  Isso se deve ao fato de que as causas externas que influenciam tanto um quanto o outro parecem ser as mesmas, isto é, a perda do objeto.  Todavia, o que intriga Freud é que em algumas pessoas esta perda produz o luto, não considerado patológico, e em outras, a melancolia.
Nesse sentido, Freud delimita os traços da melancolia: "um desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer atividade e uma diminuição dos sentimentos de auto-estima" (FREUD, 1917, p. 250). Esses mesmos traços também são encontrados no luto, porém, com uma exceção: a diminuição da autoestima.
            Há também outra questão em relação ao objeto do luto, pois, se no mesmo ele é abandonado e, mais tarde, substituído por outro, isso prova que ele é não-todo e portador de falhas, o que é contrário ao objeto da melancolia, que se apresenta completo e absoluto. Por essa razão é que há o investimento do eu em outro objeto e elaboração simbólica das perdas podem ser evidenciadas no trabalho de luto e não na melancolia.
            Freud enfatiza que no trabalho de luto é mais fácil identificar o motivo que leva ao sofrimento, já que o objeto que se perdeu e está absorvendo o ego é visivelmente percebido, pois, ele morreu, foi perdido e assim, a realidade lhe dá provas de sua ausência. Já na melancolia não se sabe o que foi realmente perdido. Assim, Freud propõe que a natureza da perda seja mais ideal, ou perda do amor do objeto. O melancólico pode até saber que objeto foi perdido, mas não sabe o que se perdeu nesse objeto. É aí que o sujeito começa a se autodepreciar-se, autopunir-se e autocriticar-se de maneira exagerada. Um paciente melancólico segundo Freud, descreve-se como sendo o pior ser humano possível, porém, sem possuir sentimentos de vergonha.
Este paciente através de suas autotorturas faz com que Freud pontue que estão dirigidas a um outro que o paciente amou ou está amando, ou seja, é um outro que o paciente agride e não a ele mesmo. Um outro que habita no eu por intermédio da identificação e incorporação, mas sem que sua existência seja identificada por ele. As torturas dirigidas a um outro só são possíveis porque não estão diretamente relacionadas a ele, mas sim contra um outro/objeto que não se sabe estar presente nele.
É por isso também que os melancólicos não se envergonham, pois estão referindo-se no fundo, a outra pessoa.
O investimento que antes era dirigido para o objeto se volta para o eu, ocorrendo uma identificação do eu com o objeto. O objeto incorporado se torna extremamente excessivo e investido a ponto do eu não se reconhecer mais, perdendo-se e tornando-se o próprio objeto. Diante dessa dor do eu, resta apenas a busca desesperada de preservação para poder manter o objeto perdido presente, ainda que para isso tenha que negar a realidade de sua ausência. Ao criar essa ilusão para manter o objeto presente através da incorporação, o eu evita uma dor maior ocasionada pela sua ausência. Mas, a realidade dá provas que o objeto não está, mesmo diante das defesas. E toda a questão da ambivalência entre amor e ódio tida com o objeto, antes mesmo de ser perdido é reativada e posta novamente em funcionamento dentro do eu. É essa ambivalência, não encontrada no luto, que é a responsável pela luta entre o eu e o objeto.
Temos então um impasse, pois, na melancolia, torturar o objeto também significa torturar o próprio eu, uma vez que o objeto se encontra dentro do próprio eu. No ato de agressão, sendo esta ativa, pois é o eu quem se autoagride, e, portanto sádica ao objeto, o eu se satisfaz de seu ódio contra ele, mas por outro lado, também sofre, uma vez que recebe parte desse ataque. Assim, sofrer e se punir pelos ataques equivale dizer ao mesmo que colocar em evidência o amor que o eu ainda nutre pelo objeto. Ao analisar essa autotortura manifestada pelo melancólico, Freud reconhece que ela também é destinada ao outro com o propósito de vingança pelo abandono sofrido. Com isso Freud assinala que na melancolia, juntamente as ambivalências de amor e ódio, sadismo e masoquismo, existe a presença de um caráter narcisista de escolha objetal.
De acordo com Hassoun (2002), quando o melancólico elege investir em um objeto, tem como objetivo, a tentativa de uma sustentação de uma imagem de si mesmo que foi falha nas primeiras identificações com o outro materno e paterno que lhe foram ausentes. Dito de outra maneira, o melancólico busca no outro algo que lhe falta, uma consistência de um traço psíquico que o identifique, já que não foi possibilitado a ele pelas figuras de identificação primária. Nesse sentido, a identificação na melancolia se dá pela totalidade do objeto e não por alguns de seus traços. Isso torna possível dizer que a fusão do eu com a imagem, ou seja, o investimento pulsional do objeto é uma tentativa de ainda manter a ilusão de uma possível completude narcísica, de uma não ruptura ou uma destruição do objeto amado.
Situamos aqui o lugar do narcisismo na melancolia, pois, uma vez fundido eu e objeto, perder esse objeto significa também perder a si mesmo nesse objeto. O eu resiste a perda, porque ele mesmo se tornou o objeto pela força da identificação.
Assim podemos dizer que, se a escolha do melancólico é de acordo com um molde narcisista, ele o incorpora não por receio em perdê-lo, mas por não querer se perder nesse mesmo objeto. Na melancolia, portanto, podemos encontrar a marca do narcisismo devido ao fato de deixar o objeto perdido, uma vez que esse objeto está misturado a ele.

**É importante salientar que a proximidade da melancolia com a depressão no campo da psiquiatria, trouxe a tona uma discussão por parte dos psicanalistas trazendo a melancolia como centro. Não quero dizer que a melancolia é considerada na psicanálise o mesmo que a depressão psiquiátrica, mas é possível dizer que existe uma interlocução entre as duas, embora limitada, por apresentarem aproximação teórica relacionada à justificativa narcísica e algumas produções sintomáticas, como por exemplo, o empobrecimento do eu.

ReferênciasSobre o Narcisismo uma introdução, Sigmund Freud, 1914; Luto e Melancolia, Sigmund Freud, 1917; A crueldade melancólica, Paul Laurent Hassoun, 2002; Melancolia e narcisismo: a face narcísica da melancolia nas relações do eu com o outro, Carlos José da Silva Santa Clara, 2007. 

Imagem: Edvard Munch - Melancolia, 1894.

Um comentário:

  1. Eitaaa. Li e reli....dificil hem! Parabéns! Depois o povo fal que Jung é difícil de entender. My God!

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