quinta-feira, 5 de maio de 2016

Melancolia, a dor de existir

                              ** Imagem: Melancholy Atomic (Melancolia Atômica) Salvador Dali, 1941

Antes de darmos início a melancolia segundo Lacan, é importante lembrar que Freud a via como o luto pela perda da libido. Nesse sentido, Freud formalizou a clínica da melancolia a partir de pontos importantes tais como, a ferocidade do supereu, a vivência da perda observada nos desencadeamentos, e o extremo sentimento de culpabilidade.
Assim, para Lacan, o melancólico é aquele que está fora do laço social, a qual recai sobre o sujeito toda a ferocidade do supereu. Enquanto que em Freud, o supereu proíbe o gozo, em Lacan, ele ordena o gozo.

“A gulodice pela qual Freud denotou o supereu é estrutural – não é um efeito da civilização, mas um “mal-estar (sintoma) na civilização” (Lacan, 1973, p. 530).

Sabemos que a estrutura é a da linguagem, e dessa forma, a matriz do supereu se dá a partir da existência de voz do Outro primordial. Os psicóticos trocam o gozo pela significação, isto é, uma posição ética que Lacan chamou de eleição de liberdade. Ou seja, os psicóticos falam aquilo que dizem os outros, dentro de um rigor psicótico das normas sociais.
Para compreendermos a clínica da melancolia em Lacan, devemos relaciona-la à perda, pois esta é uma orientação para a clínica do desencadeamento, na qual é devido ao encontro com Um pai. Em termos lacanianos, o objeto a enquanto causa de desejo está fora de jogo, o que equivale dizer que o que fica é a pura perda e a sombra de morte fazendo com o que sujeito passe ao ato suicida, como o jogar-se pela janela, isolar-se no silêncio, no desapego, na vivência de culpa e perda, na dor de existir.
Nos melancólicos é notável a presença da culpabilidade, estes que como sabemos, estão fora do registro do Nome-do-Pai, escancaram por aí que a culpabilidade assim como nos ensinou Lacan, não provém do pai.

As vivências de perda e culpabilidade como forma delirantes, constroem aquilo que Freud chamou de dor moral, uma vez que Lacan a denominou de dor de existir em estado puro, isto é, o sujeito sente-se responsável pela perda, seja ela devido a um acidente ou a morte de alguém, e por esses motivos é culpado e indigno.
Essa dor de existir é também uma experiência de neuróticos, mas somente os melancólicos a vivem em estado puro. Isso se deve ao fato de que os melancólicos diferentes dos neuróticos, não podem contar com o recurso de identificar, de dar sentido a sua vida no desejo do Outro, e a culpabilidade de não ser o significante fálico para o Outro provêm ao injustificado da vida, do gozo da vida.
É importante salientar que Lacan não desenvolveu tanto essa estrutura, mas deixou célebres passagens como, no Seminário "A ética da psicanálise" (1959-1960), de maneira que o melancólico é segundo Lacan, o morto vivo, isto é, “quer ser ninguém” aquele que busca uma segunda morte, pois é uma característica da função fálica simbólica o “ser ninguém”.
Deve-se lembrar que esses sujeitos não passam ao ato, uma vez que estão posicionados aguardando um castigo do Outro consistente.
Outra passagem de Lacan referente à melancolia está no Seminário “A angústia”, ao final da Lição XXV, na qual Lacan diz que o melancólico tem propensão para realizar-se como objeto caído em formas de suicídio.

Dessa forma, de acordo com Freud e Lacan irei abordar o que mencionei no primeiro texto sobre melancolia a respeito da mania como uma das vicissitudes do melancólico. Na mania, o que está posto em jogo é a não função do objeto a, porém convém lembrar o que Lacan nos ensina, isto é, o maníaco é aquele que na ausência da pulsão, trata o gozo pela via do castigo e da culpabilidade, uma vez que existe o triunfo do objeto que o movimenta em um “querer ser ninguém”. O maníaco acredita ter triunfado sobre o objeto e se faz mestre do significante. Como exerce um triunfo sobre o objeto acredita na possibilidade de ser em meio ao ter. Nessa busca do objeto que Freud deu o nome de “perdido”, Lacan o chamou de “subtraído”.

É importante salientar também que Lacan em “Televisão” (1974) falava sobre a depressão em geral como uma covardia, isso equivale dizer sobre uma falta moral a nível de pensamento reconhecida a nível inconsciente. Como foi dito anteriormente, Lacan desenvolveu pouco a estrutura, e antes do Seminário “A ética da psicanálise” ele quase nada escreveu sobre melancolia e mania.
No final de seu ensino Lacan diz que no sujeito psicótico, tanto a abordagem do sintoma quanto aos modos de funcionamento do sujeito permite dizer “há” ou “não há” o significante Nome-do-Pai. No entanto, como diz Miller “há um mais ou menos”. Nesse sentido, dentro do Campo Freudiano, Joyce passou a constituir o campo das “psicoses ordinárias”, já as psicoses extraordinárias são aquelas cujo paradigma é Shereber.

De forma resumida criei 6 tópicos importantes a respeito do texto, são eles:

1.  Melancólicos experenciam a dor de existir em seu estado puro

2. Dor de ser lançado no mundo com uma linguagem que não dá conta de sua existência.

3. Melancólicos não possuem o recurso de identificar e dar sentido a sua vida no desejo do Outro.

4. Lacan menciona a Melancolia no Seminário “A ética da psicanálise”. Ele é apresentado como o morto vivo que busca uma segunda morte.

5. No seminário “A Angústia”, possui propensão a realizar-se como objeto caído, em suas formas de suicídio.

6.  Frase habitual de um melancólico: “Não sou doente, sou culpado”.

Referências: Observação sobre o relatório de Daniel Lagache; Jacques Lacan in "Escritos"
             Seminário "A angústia" livro 10; Jacques Lacan
             Televisão; Jacques Lacan in "Outros Escritos" 
             Melancolia: de Freud a Lacan, a dor de existir; Ilka Franco Ferrari. 

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