Antes de darmos
início a melancolia segundo Lacan, é importante lembrar que Freud a via como o
luto pela perda da libido. Nesse sentido, Freud formalizou a clínica da
melancolia a partir de pontos importantes tais como, a ferocidade do supereu, a
vivência da perda observada nos desencadeamentos, e o extremo sentimento de
culpabilidade.
Assim, para
Lacan, o melancólico é aquele que está fora do laço social, a qual recai sobre
o sujeito toda a ferocidade do supereu. Enquanto que em Freud, o supereu proíbe
o gozo, em Lacan, ele ordena o gozo.
“A gulodice pela qual Freud denotou o
supereu é estrutural – não é um efeito da civilização, mas um “mal-estar
(sintoma) na civilização” (Lacan, 1973, p. 530).
Sabemos que a
estrutura é a da linguagem, e dessa forma, a matriz do supereu se dá a partir
da existência de voz do Outro primordial. Os psicóticos trocam o gozo pela
significação, isto é, uma posição ética que Lacan chamou de eleição de
liberdade. Ou seja, os psicóticos falam aquilo que dizem os outros, dentro de
um rigor psicótico das normas sociais.
Para
compreendermos a clínica da melancolia em Lacan, devemos relaciona-la à perda,
pois esta é uma orientação para a clínica do desencadeamento, na qual é devido
ao encontro com Um pai. Em termos lacanianos, o objeto a enquanto causa de desejo está fora de jogo, o que
equivale dizer que o que fica é a pura perda e a sombra de morte fazendo com o
que sujeito passe ao ato suicida, como o jogar-se pela janela, isolar-se
no silêncio, no desapego, na vivência de culpa e perda, na dor de existir.
Nos melancólicos
é notável a presença da culpabilidade, estes que como sabemos, estão fora do
registro do Nome-do-Pai, escancaram por aí que a culpabilidade assim como nos
ensinou Lacan, não provém do pai.
As vivências de
perda e culpabilidade como forma delirantes, constroem aquilo que Freud chamou
de dor moral, uma vez que Lacan a denominou de dor de existir em estado puro,
isto é, o sujeito sente-se responsável pela perda, seja ela devido a um
acidente ou a morte de alguém, e por esses motivos é culpado e indigno.
Essa dor de existir é também uma
experiência de neuróticos, mas somente os melancólicos a vivem em estado puro.
Isso se deve ao fato de que os melancólicos diferentes dos neuróticos, não
podem contar com o recurso de identificar, de dar sentido a sua vida no desejo
do Outro, e a culpabilidade de não ser o significante fálico para o Outro
provêm ao injustificado da vida, do gozo da vida.
É importante
salientar que Lacan não desenvolveu tanto essa estrutura, mas deixou célebres passagens
como, no Seminário "A ética da psicanálise" (1959-1960), de maneira que o
melancólico é segundo Lacan, o morto vivo, isto é, “quer ser ninguém” aquele
que busca uma segunda morte, pois é uma característica da função fálica
simbólica o “ser ninguém”.
Deve-se lembrar
que esses sujeitos não passam ao ato, uma vez que estão posicionados aguardando
um castigo do Outro consistente.
Outra passagem
de Lacan referente à melancolia está no Seminário “A angústia”, ao final da
Lição XXV, na qual Lacan diz que o melancólico tem propensão para realizar-se
como objeto caído em formas de suicídio.
Dessa forma, de
acordo com Freud e Lacan irei abordar o que mencionei no primeiro texto sobre
melancolia a respeito da mania como uma das vicissitudes do
melancólico. Na mania, o que está posto em jogo é a não função do objeto a, porém convém lembrar o que
Lacan nos ensina, isto é, o maníaco é aquele que na ausência da pulsão, trata o
gozo pela via do castigo e da culpabilidade, uma vez que existe o triunfo do
objeto que o movimenta em um “querer ser ninguém”. O maníaco acredita ter
triunfado sobre o objeto e se faz mestre do significante. Como exerce um
triunfo sobre o objeto acredita na possibilidade de ser em meio ao ter. Nessa
busca do objeto que Freud deu o nome de “perdido”, Lacan o chamou de
“subtraído”.
É importante
salientar também que Lacan em “Televisão” (1974) falava sobre a depressão em
geral como uma covardia, isso equivale dizer sobre uma falta moral a nível de
pensamento reconhecida a nível inconsciente. Como foi dito anteriormente, Lacan
desenvolveu pouco a estrutura, e antes do Seminário “A ética da psicanálise”
ele quase nada escreveu sobre melancolia e mania.
No final de seu
ensino Lacan diz que no sujeito psicótico, tanto a abordagem do sintoma quanto
aos modos de funcionamento do sujeito permite dizer “há” ou “não há” o
significante Nome-do-Pai. No entanto, como diz Miller “há um mais ou menos”.
Nesse sentido, dentro do Campo Freudiano, Joyce passou a constituir o campo das
“psicoses ordinárias”, já as psicoses extraordinárias são aquelas cujo
paradigma é Shereber.
De forma resumida criei 6 tópicos
importantes a respeito do texto, são eles:
1. Melancólicos experenciam a dor de existir em seu estado puro
2. Dor de ser lançado no mundo com uma linguagem que não dá conta de sua existência.
3. Melancólicos
não possuem o recurso de identificar e dar sentido a sua vida no desejo do
Outro.
4. Lacan
menciona a Melancolia no Seminário “A ética da psicanálise”. Ele é apresentado
como o morto vivo que busca uma segunda morte.
5. No seminário
“A Angústia”, possui propensão a realizar-se como objeto caído, em suas formas
de suicídio.
6. Frase habitual de um melancólico: “Não sou
doente, sou culpado”.
Referências: Observação sobre o relatório de Daniel Lagache; Jacques Lacan in "Escritos"
Seminário "A angústia" livro 10; Jacques Lacan
Televisão; Jacques Lacan in "Outros Escritos"
Melancolia: de Freud a Lacan, a dor de existir; Ilka Franco Ferrari.

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